Todos que trabalham com crianças de 0 a 3 anos são agentes de Saúde Mental no desempenho da função materna e paterna.
Maria Aparecida Gomes Costa
Todos que trabalham com crianças de 0 a 3 anos são agentes de Saúde Mental no desempenho da função materna e paterna.
Rio de Janeiro
2010
Agradecimentos
A todos integrantes da Comissão de Saúde Primária da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil Rio de Janeiro (ABENEPI), que me permitiram tomar contato com o tema Clínica dos Primórdios e os Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD), o que despertou em mim além do interesse, o compromisso. Especialmente, a Dra.Cristina Hoyer e Dra.Bianca Bulcão, que me abriram as portas de seus consultórios, do seu tempo e o coração para que eu desse mais este passo. As brilhantes observações tecidas tanto em supervisões como em aulas, que ampliaram o meu campo de visão e a escuta. A todos os que contribuíram com suas reflexões para o desenvolvimento deste trabalho, ao acolhimento da Escola Criançartes especialmente as integrantes do berçário. A mim mesma, pela iniciativa e dedicação. Luz e Energia a todos vocês!
Resumo
Durante muito tempo, associei a ternura ao contacto físico, no gesto percebido, oferecido com o encontro dos corpos, sendo esta não somente física, tendo a sensação como companheira, emoção imprevisível, olhar, movimento secreto e fugaz, associado ao conjunto de sentidos. Por este motivo associo todas as manifestações corporais passíveis de reconhecimento enquanto linguagem, indício de que o sujeito está se constituindo. Na observação em uma Creche na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro deparei-me com o olhar significativo de uma criança de aproximadamente 08 meses. Ao trocar olhares com essa criança percebi que possivelmente tratava-se de uma criança com Síndrome de Down. A orientação de nossa Supervisora era de observar, e nada perguntar!As cuidadoras não teriam o conhecimento de que eu estava lá, do por que estava e o que iria fazer ou anotar. O objetivo deste trabalho é identificar, pontuar através dos indicadores clínicos e os sinais de risco psíquico usados para diagnóstico precoce, levando em conta o envolvimento das crianças com os cuidadores a partir de observação desta criança acima citada,como se relaciona em seu espaço na Creche, sua adaptação ao meio que está inserido, sua desordem inicial por conta de sua imaturidade psíquica, a possível organização de idéias. Serão apresentados possíveis meios de detecção mais rápido possível, sinais de risco psicossociais que possam provavelmente causar sérias psicopatologias. Por meio deste trabalho gostaria de afirmar que a intervenção precoce sendo logo iniciada, será essencial para diminuir os efeitos negativos que o transtorno por menor que seja, atrapalhem o desenvolvimento da criança, o fortalecimento dos vínculos criança-pais-escola-promoção de saúde e prevenção à doença. Demonstrar a importância para a formação do individuo, desenvolver sua própria identidade, fortalecer a sua auto-estima. O Método: Com vistas a alcançar os objetivos estipulados pelo Projeto de Pesquisa dos “Tempos de Subjetivação na 1ª Infância”. O trabalho em questão é fruto do estudo no decorrer de todo o curso, leitura das apostilas e livros indicados. Os avanços em sua compreensão são conduzidos a uma nova perspectiva terapêutica. Esta revisão foca o histórico, a nosologia e as características clínicas, associadas à Síndrome de Down, o Desejo e a relação do ambiente na Creche.
Palavras-Chave: Síndrome de Down; Desenvolvimento infantil; Funções Materna e Paterna; Desejo.
Introdução
O presente estudo relata a experiência de observação feita em uma Creche na Zona Sul do Rio de Janeiro e o conteúdo estudado no Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces.
A orientação de nossa Supervisora Cristina Hoyer (1) na Creche é de observar e nada perguntar, levando em conta a linguagem como estruturante da posição do Sujeito.
O objetivo desta ressalva será visualizar os tempos de subjetivação do Sujeito que escolherei olhar com atenção. Os tempos de Constituição do Sujeito na 1ª infância a partir da relação com o Outro sendo este representado pelos cuidadores desta Instituição. Como provavelmente está sendo organizado o aparelho psíquico do Sujeito.
21 de Junho de 2010 - meu primeiro dia de observação, as idéias primárias a respeito do conteúdo a ser estudado fervilhavam, não sabia bem o porquê de estar ali e como me colocaria no meio dos olhares de tantos bebês. Como escolher?Como permanecer alheia aos olhares cativantes em um berçário com aproximadamente 15 bebês de 03 meses a 01 ano de idade?Como ter um olhar diferenciado?Como identificar com o olhar?Qual seria o movimento que eu faria para despertar este olhar?Como perceber, apostar um sujeito enquanto Sujeito do desejo?O desejo de responder todas as perguntas que brotavam em meus pensamentos, vendo-me sabedora que naquele momento não seria capaz de respondê-las, precisava primeiramente passar pela experiência, vivenciá-la, senti-la, desejando-a.
Segundo informações de Jacques Lacan (1901-1980) (2) o qual relata “que o momento em que o desejo se humaniza é aquele em que a criança nasce para a linguagem.”
Há um saber inconsciente presente na relação da família com a criança, que passa de geração a geração e que é transmitido entre a criança e seus principais cuidadores sejam inclusive pessoas que trabalham nos berçários.
É a partir da linguagem seja ela verbal ou não verbal que se origina, move, organiza e configura o processo do desenvolvimento da criança, frente ao Outro.
Citarei a partir de leitura, o conceito amplo de desenvolvimento sendo o “aumento da capacidade do individuo na realização de funções, cada vez mais complexas” Sendo “uma obra inacabada” e dependente de múltiplos fatores, o que exige que sua abordagem seja necessariamente multidisciplinar.
“Desenvolvimento não se faz “no ar” por pura maturação. Na 1ª infância, o desenvolvimento dependerá muito da interação pais-criança (cuidadores fundamentais) e esta, como parte princeps, deverá ser incluída tanto no diagnóstico quanto nos tratamentos. ”“ A temporalidade para a psicanálise não é somente tempo cronológico, o tempo cronológico é levado em conta pelas incidências reais no desenvolvimento, mas não é o único. O tempo cria, em dimensão lógica de que o antes acontecido e o depois incidindo sobre ele lhe fornece uma significação.”
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(1) Cristina Hoyer – Psicanalista. Membro-Fundador da Comissão de Saúde Primária da Abenepi; Fundadora e Coordenadora da ONG Projeto Espaço-Vivo. Especialista em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico – Institucional.
(2) Jacques Lacan (1901-1980) nasceu na França em Orleans. Formou-se em medicina, atuando como neurologista e psiquiatra e se considerava um Psicanalista Freudiano.
“Essa temporalidade do à posteriori subverte os esquemas lineares de fases do desenvolvimento, da sexualidade e da maturação”. O acontecimento cria a diferença entre um antes e um depois, como o referencial de uma ampulheta do tempo, mesmo sendo produto de um passado, não podendo ser reduzido, abrindo-se o tempo para o sujeito, num futuro próspero. Sendo a temporalidade do à posteriori a temporalidade do inconsciente. São as marcas, cicatrizes impressas no Sujeito que vão inscrevendo em seu corpo permanecendo registradas em seu psiquismo.
“Esse registro é estruturalmente inconsciente, mas continua exercendo efeitos sobre o Sujeito”.
Como a linguagem é estruturante da posição do Sujeito?Como se articulam o visível e o invisível?A partir de três registros que são o imaginário, o simbólico e real.
O registro simbólico age como barreira entre o imaginário e o real ao mesmo tempo em que os articula. O registro do imaginário é o campo do visível, onde se encontra o mundo dos objetos perceptíveis e das imagens que segue a tópica especular.É onde reina o eu, mestre da consciência, do corporal e da extensão ( no sentido cartesiano) mas não governa, pois quem comanda é o simbólico sua lógica significante.O real é o registro pulsional, da causalidade, espaço que Lacan apreendeu com a topologia, invisível aos olhos humanos, em que o olhar faz de todos( os que vêem e os que não vêem)seres vistos, mergulhados na visão.A estruturação simbólica, que separa o imaginário do real, se reduz à relação do sujeito com o significante, presente em todo fenômeno visual.Segundo Antonio Quinet (3),onde em seu livro cita Jacques Lacan explicando que no homem, o simbólico se estrutura através do Édipo, cujo significante, o Nome – do – Pai , esvazia o gozo da mãe no lugar do Outro do Sujeito.O gozo, assim esvaziado do Outro, retorna nos objetos que a pulsão recupera utilizando-os para sua satisfação.Estes dados darão origem as funções materna e paterna que detalharei em outra seção deste trabalho.
Para tecer o presente estudo levarei em consideração a importância dos cuidadores para as crianças que se encontram sobre sua tutela na prevenção e intervenções precoces.
O ato educativo não compreende na primeira infância apenas um ato pedagógico nem no plano da Puericultura (4), educar é criar condições para o surgimento de um sujeito.
Rosa Maria Marini Mariotto (5) faz “uma leitura das diferentes funções em jogo nos
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(3) Antonio Quinet é psicanalista, psiquiatra e doutor em filosofia pela Universidade de Paris VIII. É autor, entre outros, de As 4+1 condições da análise (1991), A descoberta do inconsciente (2000), Um olhar a mais (2002) e A lição de Charcot (2005), todos publicados por essa editora, além de Teoria e clínica da psicose (Forense Universitária, 2000).
(4) Puericultura também pode ser chamada de Pediatria Preventiva e tem como objeto a criança sadia e seu alvo é um "adulto perfeito": fisicamente sadio psiquicamente equilibrado e socialmente útil.
(5) Rosa Maria Marini Mariotto graduada no Curso de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1987), mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná (1998) e é Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (2007). Atualmente é professora assistente nível III da Pontifícia Universidade Católica do Paraná na graduação e pós-graduação. lítica com crianças. Psicanalista Membro e Presidente da Associação Psicanalista de Curitiba.
cuidados cotidianos de um bebê, destacando que as educadoras no âmbito da educação infantil podem desempenhar tanto função materna quanto função paterna, dependendo do que a situação oferece, da posição que ocupam e de sua implicação em seu ato.”
Qual será o lugar do cuidador no exercício do oficio na Creche?Qual será a contribuição do cuidador na formação do psiquismo do bebê do qual está cuidando?Como a prevenção ocupa posição entre as funções de cuidar, educar e prevenir?Será a Creche um elemento a mais na Constituição do Sujeito?A Creche quando exerce provavelmente a função de Outro no desejo da criança passa a ser um elemento a mais na composição do desenho psíquico de um bebê.
Desenvolvimento
28 de Junho de 2010 – Cheguei a Creche, sentei-me ao chão recostada na parede em observação. Notei uma criança debruço que se virava de um lado para o outro, percebi que olhava um chocalho a sua frente. Em uma das viradas olha-me e sorri,ali estava o olhar! O olhar daquela criança fixo e quase sem piscar já falava sua linguagem sendo o convocador da construção do laço estruturante – o desejo, a partir do olhar-voz veio à vontade, instigando a trabalhar. O que acontece com poder de invocação deste olhar-voz?Deverá haver uma troca, esta troca é o olhar do prazer que existe na cuidadora transmitido para a criança, funcionando como sistema simbólico?
O Clínico ao se deparar com uma criança que não fala ou possue debilidades deverá supor, que exista uma subjetividade à espera de ser interrogada.
“O bebê em processo de Constituição do Sujeito necessita estar incluído no campo psíquico dos cuidadores. Um desejo que não pode ser anônimo é o motor inapreensível do Sujeito”. “Há uma responsabilidade a mais, nas clínicas dos primórdios: toda ação de investimento nestes primeiros anos da estrutura, tempo de inscrições significantes e construções, deixará marcas no proto – aparelho psíquico do pré-sujeito” (2)
“A prevenção e Intervenção Precoces deverá acontecer o mais a tempo possível supondo um Sujeito por vir” (3).
Retirei da Apostila de Estudos um trecho de grande importância e significado para a Clínica dos Primórdios descreverei abaixo: (4)
“Há que ter alguma coragem
Há que ter algum sonho
Correndo nas veias, e um
Grão de loucura faiscando na alma“ (Lya Luft)
Ou,
Apenas Desejo.
O que uma cuidadora transmite a um bebê, sem saber, quando cuida dele?
Quando o bebê humano entra em contacto com o Outro da relação, deixa o seu fundamento de ser de necessidade para se transformar em ser de desejo. Somos a única espécie que dá prioridade ao desejo que à necessidade.
Quando a criança observada balbucia algo como dá-dá-dá ele está dando significado ao encontro inaugural, não é um ruído, é um apelo como dizendo:
- Estou aqui desejo estar perto de você!Você me encanta!Desejo ter você colada ao meu corpo, este gesto me dá prazer! “A voz e o olhar, enquanto objetos pulsionais, delimitam as bordas que separam o corpo da mãe (cuidadora) do que será o corpo do bebê. Esses objetos têm a função de fundação tanto do sujeito como do Outro.” (5)
O triângulo clássico pai –mãe – bebê nos casos de crianças criadas em creches pelas equipes cuidadoras pode ser difícil discernir como é feito este laço primordial, pois, o laço primordial possui duas vertentes, são as funções de pai e mãe.
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(2) Trecho retirado do 1º modulo do Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – página 22
(3) (4)Trecho retirado do 1º módulo do Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – página 24.
(5) Apostila 7º Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – 3º Módulo. Página 55.
A Função Materna
27 de Julho de 2010 – A criança observada estava vestida com um short azul com dizeres em verde e uma blusinha verde com frisos azuis. Não senta sozinho, a cuidadora colocou o remédio em suas narinas, ele estava chorando e continuou gritando em um choro diferenciado, mais que choro!Foi tomar a mamadeira, o sugar parece dificultoso para ele, parece ter deglutição atípica, talvez seja devido a sua Síndrome. Ao acolher em seu peito esta criança, niná-la, dar-lhe alimento, seu olhar carinhoso, brinca com seu sorriso, conversa com ela fazendo comentários sobre o cheiro de limpeza de maneira carinhosa (fala particular), sem nenhum gesto de jogo corporal, como de morder o seu pé, apertar suas bochechas. Estava eu ali, observando todo o desenrolar deste processo, uma nova possibilidade de compreender o processo de subjetivação que contempla a elaboração da realidade psíquica do ser, incluindo o educador no papel de cuidador como ser de linguagem, como ser de desejo. Isto é supor que um sujeito se constitua a partir de sua inserção na e pela linguagem, por meio de um outro que, com seu desejo, marca-o como significante.
“Para entrar em contato com seu bebê, a mãe se toma por ele, ou melhor, ela o toma como um pedaço dela mesma.”
Função Paterna
27 de Julho de 2010 – A professora de expressão corporal está massageando as outras crianças, a criança em observação acompanha com seu olhar todos os movimentos que ela faz vez enquanto esta professora percebe que ele está a observá-la brinca com, fala palavras carinhosas, o ensaio de um sorriso aparece, aparece outro, até que vejo todo aquele corpo sorrir abundantemente para aquele Outro em um sorriso intencional. Enfim, naquele colo aconchegante da cuidadora aquele bebê se aninha e consegue mamar todo o conteúdo de sua mamadeira, recebendo os parabéns de sua cuidadora e da professora de expressão corporal. Começa então, uma observação de si mesmo, olha seu short, olha seu pé, olha seus braços e mãos, olha-se, interage com o seu corpo em uma integração maravilhosa. Percebe suas mãos na boca, suga seus dedos, pega seus pés, pega o brinquedo, o cubo o fascina, principalmente o de cor vermelha, apodera-se dele, olhando-o de perto, passa por ele engatinhando outra criança e ele oferece o cubo a ela, ela pega, ele se inclina com as mãos ao chão para chegar mais perto dela, então, neste instante a professora de expressão corporal o pega para fazer os exercícios, ele sorri e se deixa levar. O processo encontra-se em nível estrutural(conectividade) e não apenas funcional (programação).”O cérebro torna-se um tear encantado onde milhões de rápidas lançadeiras tecem um padrão em mutação, sempre significativo embora nunca persistente”. (6)
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(6) Trecho retirado do 1º modulo do Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – página35.
Ele e a professora se entreolham, ele balbucia da-da-da querendo se comunicar, ela o coloca deitado de bruços após massagear o seu corpo e o força a empurrar seu corpo para frente fazendo um movimento de gangorra, ele demonstra com sua expressão facial não desejar estar nesta posição, talvez desconfortante. A professora insiste, ele balbucia da-da-da desta vez com uma outra entonação. A professora compreende o seu gesto e diz a ele que é preciso ficar assim, é sabedora do seu incomodo mais é necessário fazer,então ele consegue responder ao seu pedido, arrasta o corpo para frente, o empurra de encontro ao chão como deslizando-o como a professora o estava ensinando,momento mágico aquele do entender, fazer, executar.Ali estava a lei, pelo tempo de aula a professora estabeleceu o corte, surgindo a renúncia a alguma coisa, a lei o proibi abrindo um leque de opções, diferente do conceito da regra “que é o princípio constitutivo de hábitos morais”. A “lei diz não faça isso, porém faça outra coisa, enquanto a regra prescreve categoricamente a prática de atos concretos” (7).
Como com seu ato levasse a exprimir o sentimento de que mesmo aquela criança não gostando do que estava fazendo, era necessário fazer, a imposição do limite estava sendo iniciada naquele momento, ali está à função paterna.
“A função paterna é um operador psíquico da separação. O laço primordial na sua vertente paterna introduz um corte. Ele corresponde à capacidade separadora do pai e à sua função reguladora da onipotência primordial da mãe.”
Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil
A cuidadora/educadora compreende os atos de intencionalidade da criança dando com a linguagem seja ela verbal ou não verbal, o significado para aquela ação. Quando a cuidadora percebe que a criança chora ou grita, ela particularmente sabe o que ela deseja, falando com ela por intermédio do mamanhês, troca de olhares de entendimento, convidando à liberdade de expressão. Ela percebe quando a solicitação da criança é um manhês, uma forma de chamar a atenção. A cuidadora/educadora passa a ser ponto de referência para a criança,ocupando a função de participante no processo de subjetivação dos bebês.No meu relato de minha observação na Creche vivenciei a seqüência dos indicadores clínicos de risco “desfilarem”em vários comportamentos da criança por mim observada.
03 de Agosto de 2010 – Carlos (8) está vestido com um conjunto de short e camiseta azul escuro de mangas curtas azuis claras com dizeres, parece ter acabo de tomar banho, seu cabelo penteado para o lado parece molhado.
A cuidadora observa a criança e declara: - “O Carlos (8) está entupido e não consegue sugar!!”. (sic)
Carlos(8) que estava chorando, para de chorar prestando atenção na cuidadora que o pega ao colo, este se agarra a ela, agarra sua blusa e esta ficando de pé aconchega a criança que acaricia seu rosto, sugando o leite da mamadeira. Esta criança presta a atenção em cada traço do rosto de sua cuidadora, apalpa seu braço, aperta suas mãos em seu peito, talvez a procura da necessidade de proteção. Carlos está mamando, enquanto mama manuseia o rosto da cuidadora, olhar manso, tranqüilo, momento mágico aquele. Este instante caracteriza o reconhecimento da cuidadora o significado de determinadas manifestações do bebê, quando a criança usa vários tipos de sinais diferentes para expressar suas diferentes necessidades, Carlos solicita a cuidadora e faz um intervalo para aguardar sua resposta, presta a atenção quando pressentiu que está sendo comentado algo e seu nome é falado. A criança procura ativamente o olhar da professora de expressão corporal, a cuidadora percebe que alguns movimentos da criança podem ser uma forma de chamar sua atenção, pois esta verbaliza a ação. A criança demonstra gostar ou não gostar de alguma coisa com expressões faciais, como exemplo prováveis momentos em que morde os braços em um abraço ou bate com seu rosto no chão acolchoado.Para sabermos se as operações ocorreram a tempo e com sucesso recorreremos aos sinais de marcadores de risco que indica a faixa etária do comportamento psíquico da criança, conforme descrevo abaixo o que ocorreu no dia 20 de Julho de 2010 em minha observação.
20 de Julho de 2010 - A cuidadora relata que a criança que observo, não tirou nenhum cochilo até o momento.
Quando cheguei a meu horário habitual e após permanecer 01 hora e 30 minutos sentada, pensando que o bebê que eu observava tinha faltado, a cuidadora exclama que este bebê estava dormindo, ao chegar ao berçário ele estava parado, quieto, olhando o teto, o conceito da insônia calma como sendo um sinal que pode passar muito tempo despercebido pela Instituição, trata-se de bebês que são colocados após mamarem em seus berços, mais não dormem,permanecem quietos, olhar fixo no teto, não dormem, não brincam, não apelam,parecendo em estado letárgico de ruptura em relação ao mundo exterior. Em leitura de estudos (9), deparo-me com a seguinte frase: “Por causa de seu aspecto silencioso, a insônia calma pode ser particularmente perigosa porque ela é considerada como um sinal positivo, sobretudo em Instituição, mas também por parte de mães deprimidas, ou pouco disponíveis. Em minha observação levei em consideração outro sinal significativo, o sinal de pedalar na criança, provavelmente ela responde com o pedalar para uma cuidadora e a professora de expressão corporal, todo seu corpo se movimenta para a voz que lhe fala, mesmo que de longe esteja, antecipando-se para ser tomado nos braços, trata-se de uma diferenciação de laço. A alimentação, o olhar, necessita de uma virada, “essa passagem do real ao simbólico de que nos fala Lacan no seminário relação de objeto”.
Para sabermos se as operações ocorreram a tempo e com sucesso recorremos aos sinais de risco o mais cedo possível.
“O risco psíquico se dá pela interrupção da continuidade dos laços afetivos e referenciais entre o Recém nascido e sua mãe representa situação de risco para ambos, assim como para o vínculo entre eles.” (7)
As cuidadoras e principalmente a professora de expressão corporal parecem reconhecer o grito, o choro, o silêncio, a calma e outros comportamentos como significante, operando como intérprete, indicadores de sinais de risco do desenvolvimento infantil.
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(7) livro: Cuidar, Educar e Prevenir: as funções da creche na subjetivação de bebê – Rosa Maria Marini Mariotto- página 113.
(8) Carlos é um nome fictício, resguardo de identidade da criança observada.
(09) A Clínica Precoce: O Nascimento do Humano-Graciela Cullere-Crespin, Casa do Psicólogo, SP, 2004.
Considerações Finais.
A Intervenção é precoce se ocorrer antes que padrões de postura e movimentos anormais se instalem, sendo os primeiros meses o período ideal para iniciar o programa. Na prática muitos bebês são encaminhados tardiamente às instituições, apresentando deficiências, restringindo a intervenção muitas vezes impedindo o objetivo a ser alcançado de prevenir as alterações patológicas no desenvolvimento infantil, ela não consiste em antecipar a aparição de um sintoma e sim, no mais a tempo possível através deste trabalho detectar o normal/patológico no inicio do desenvolvimento. O que é prevenir? Em que tempo fazer uma prevenção?Compreendo a prevenção como a antecipação de uma intervenção, sendo uma justificativa da possibilidade de diagnosticar precocemente e de estabelecer um diálogo interdisciplinar para que se possa intervir o mais cedo possível, a partir dos sinais indicadores de risco citados acima, detectados na relação mãe-bebê, cuidadores/educadores– bebê, no caso de uma creche ou nos sinais pulsionais do bebê. Na observação no mais a tempo possível, no início do desenvolvimento do bebê, poderemos detectar a partir dos sinais de risco as psicopatologias antes que elas se instalem e essas estruturas se amarrem, ou para possibilitar uma melhor instauração da estrutura psíquica.
Há intervenções imprescindíveis que devem preceder um diagnóstico provavelmente definitivo, como por exemplo, nos Transtornos Globais do Desenvolvimento e Transtorno Invasivo de Desenvolvimento.
Referências Bibliográficas
Crespin, Graciela Cullire. A Clínica Precoce: O Nascimento do Humano, Coleção dirigida por Claúdia Mascarenhas Fernandes, São Paulo, Casa do Psicólogo Ed. 2004.
Mariotto, Rosa Maria Marini. Cuidar, Educar e Prevenir: as funções da creche na subjetivação de bebês, São Paulo : Escuta Ed., 2009.
Quinet. Antonio.Um Olhar a Mais ver e ser visto na psicanálise, 2ªedição,Rio de Janeiro :Jorge Zahar Ed., 2004
Apostila – 1º. 2º e 3º Modulo do 7º Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – Clínica dos Primórdios e Transtornos Globais do Desenvolvimento.1º Modulo: 29 de Maio de 2010, 2º Modulo : 26 de Junho de 2010, 3º Modulo : 24 de Julho de 2010.
Todos que trabalham com crianças de 0 a 3 anos são agentes de Saúde Mental no desempenho da função materna e paterna.
Rio de Janeiro
2010
Agradecimentos
A todos integrantes da Comissão de Saúde Primária da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil Rio de Janeiro (ABENEPI), que me permitiram tomar contato com o tema Clínica dos Primórdios e os Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD), o que despertou em mim além do interesse, o compromisso. Especialmente, a Dra.Cristina Hoyer e Dra.Bianca Bulcão, que me abriram as portas de seus consultórios, do seu tempo e o coração para que eu desse mais este passo. As brilhantes observações tecidas tanto em supervisões como em aulas, que ampliaram o meu campo de visão e a escuta. A todos os que contribuíram com suas reflexões para o desenvolvimento deste trabalho, ao acolhimento da Escola Criançartes especialmente as integrantes do berçário. A mim mesma, pela iniciativa e dedicação. Luz e Energia a todos vocês!
Resumo
Durante muito tempo, associei a ternura ao contacto físico, no gesto percebido, oferecido com o encontro dos corpos, sendo esta não somente física, tendo a sensação como companheira, emoção imprevisível, olhar, movimento secreto e fugaz, associado ao conjunto de sentidos. Por este motivo associo todas as manifestações corporais passíveis de reconhecimento enquanto linguagem, indício de que o sujeito está se constituindo. Na observação em uma Creche na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro deparei-me com o olhar significativo de uma criança de aproximadamente 08 meses. Ao trocar olhares com essa criança percebi que possivelmente tratava-se de uma criança com Síndrome de Down. A orientação de nossa Supervisora era de observar, e nada perguntar!As cuidadoras não teriam o conhecimento de que eu estava lá, do por que estava e o que iria fazer ou anotar. O objetivo deste trabalho é identificar, pontuar através dos indicadores clínicos e os sinais de risco psíquico usados para diagnóstico precoce, levando em conta o envolvimento das crianças com os cuidadores a partir de observação desta criança acima citada,como se relaciona em seu espaço na Creche, sua adaptação ao meio que está inserido, sua desordem inicial por conta de sua imaturidade psíquica, a possível organização de idéias. Serão apresentados possíveis meios de detecção mais rápido possível, sinais de risco psicossociais que possam provavelmente causar sérias psicopatologias. Por meio deste trabalho gostaria de afirmar que a intervenção precoce sendo logo iniciada, será essencial para diminuir os efeitos negativos que o transtorno por menor que seja, atrapalhem o desenvolvimento da criança, o fortalecimento dos vínculos criança-pais-escola-promoção de saúde e prevenção à doença. Demonstrar a importância para a formação do individuo, desenvolver sua própria identidade, fortalecer a sua auto-estima. O Método: Com vistas a alcançar os objetivos estipulados pelo Projeto de Pesquisa dos “Tempos de Subjetivação na 1ª Infância”. O trabalho em questão é fruto do estudo no decorrer de todo o curso, leitura das apostilas e livros indicados. Os avanços em sua compreensão são conduzidos a uma nova perspectiva terapêutica. Esta revisão foca o histórico, a nosologia e as características clínicas, associadas à Síndrome de Down, o Desejo e a relação do ambiente na Creche.
Palavras-Chave: Síndrome de Down; Desenvolvimento infantil; Funções Materna e Paterna; Desejo.
Introdução
O presente estudo relata a experiência de observação feita em uma Creche na Zona Sul do Rio de Janeiro e o conteúdo estudado no Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces.
A orientação de nossa Supervisora Cristina Hoyer (1) na Creche é de observar e nada perguntar, levando em conta a linguagem como estruturante da posição do Sujeito.
O objetivo desta ressalva será visualizar os tempos de subjetivação do Sujeito que escolherei olhar com atenção. Os tempos de Constituição do Sujeito na 1ª infância a partir da relação com o Outro sendo este representado pelos cuidadores desta Instituição. Como provavelmente está sendo organizado o aparelho psíquico do Sujeito.
21 de Junho de 2010 - meu primeiro dia de observação, as idéias primárias a respeito do conteúdo a ser estudado fervilhavam, não sabia bem o porquê de estar ali e como me colocaria no meio dos olhares de tantos bebês. Como escolher?Como permanecer alheia aos olhares cativantes em um berçário com aproximadamente 15 bebês de 03 meses a 01 ano de idade?Como ter um olhar diferenciado?Como identificar com o olhar?Qual seria o movimento que eu faria para despertar este olhar?Como perceber, apostar um sujeito enquanto Sujeito do desejo?O desejo de responder todas as perguntas que brotavam em meus pensamentos, vendo-me sabedora que naquele momento não seria capaz de respondê-las, precisava primeiramente passar pela experiência, vivenciá-la, senti-la, desejando-a.
Segundo informações de Jacques Lacan (1901-1980) (2) o qual relata “que o momento em que o desejo se humaniza é aquele em que a criança nasce para a linguagem.”
Há um saber inconsciente presente na relação da família com a criança, que passa de geração a geração e que é transmitido entre a criança e seus principais cuidadores sejam inclusive pessoas que trabalham nos berçários.
É a partir da linguagem seja ela verbal ou não verbal que se origina, move, organiza e configura o processo do desenvolvimento da criança, frente ao Outro.
Citarei a partir de leitura, o conceito amplo de desenvolvimento sendo o “aumento da capacidade do individuo na realização de funções, cada vez mais complexas” Sendo “uma obra inacabada” e dependente de múltiplos fatores, o que exige que sua abordagem seja necessariamente multidisciplinar.
“Desenvolvimento não se faz “no ar” por pura maturação. Na 1ª infância, o desenvolvimento dependerá muito da interação pais-criança (cuidadores fundamentais) e esta, como parte princeps, deverá ser incluída tanto no diagnóstico quanto nos tratamentos. ”“ A temporalidade para a psicanálise não é somente tempo cronológico, o tempo cronológico é levado em conta pelas incidências reais no desenvolvimento, mas não é o único. O tempo cria, em dimensão lógica de que o antes acontecido e o depois incidindo sobre ele lhe fornece uma significação.”
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(1) Cristina Hoyer – Psicanalista. Membro-Fundador da Comissão de Saúde Primária da Abenepi; Fundadora e Coordenadora da ONG Projeto Espaço-Vivo. Especialista em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico – Institucional.
(2) Jacques Lacan (1901-1980) nasceu na França em Orleans. Formou-se em medicina, atuando como neurologista e psiquiatra e se considerava um Psicanalista Freudiano.
“Essa temporalidade do à posteriori subverte os esquemas lineares de fases do desenvolvimento, da sexualidade e da maturação”. O acontecimento cria a diferença entre um antes e um depois, como o referencial de uma ampulheta do tempo, mesmo sendo produto de um passado, não podendo ser reduzido, abrindo-se o tempo para o sujeito, num futuro próspero. Sendo a temporalidade do à posteriori a temporalidade do inconsciente. São as marcas, cicatrizes impressas no Sujeito que vão inscrevendo em seu corpo permanecendo registradas em seu psiquismo.
“Esse registro é estruturalmente inconsciente, mas continua exercendo efeitos sobre o Sujeito”.
Como a linguagem é estruturante da posição do Sujeito?Como se articulam o visível e o invisível?A partir de três registros que são o imaginário, o simbólico e real.
O registro simbólico age como barreira entre o imaginário e o real ao mesmo tempo em que os articula. O registro do imaginário é o campo do visível, onde se encontra o mundo dos objetos perceptíveis e das imagens que segue a tópica especular.É onde reina o eu, mestre da consciência, do corporal e da extensão ( no sentido cartesiano) mas não governa, pois quem comanda é o simbólico sua lógica significante.O real é o registro pulsional, da causalidade, espaço que Lacan apreendeu com a topologia, invisível aos olhos humanos, em que o olhar faz de todos( os que vêem e os que não vêem)seres vistos, mergulhados na visão.A estruturação simbólica, que separa o imaginário do real, se reduz à relação do sujeito com o significante, presente em todo fenômeno visual.Segundo Antonio Quinet (3),onde em seu livro cita Jacques Lacan explicando que no homem, o simbólico se estrutura através do Édipo, cujo significante, o Nome – do – Pai , esvazia o gozo da mãe no lugar do Outro do Sujeito.O gozo, assim esvaziado do Outro, retorna nos objetos que a pulsão recupera utilizando-os para sua satisfação.Estes dados darão origem as funções materna e paterna que detalharei em outra seção deste trabalho.
Para tecer o presente estudo levarei em consideração a importância dos cuidadores para as crianças que se encontram sobre sua tutela na prevenção e intervenções precoces.
O ato educativo não compreende na primeira infância apenas um ato pedagógico nem no plano da Puericultura (4), educar é criar condições para o surgimento de um sujeito.
Rosa Maria Marini Mariotto (5) faz “uma leitura das diferentes funções em jogo nos
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(3) Antonio Quinet é psicanalista, psiquiatra e doutor em filosofia pela Universidade de Paris VIII. É autor, entre outros, de As 4+1 condições da análise (1991), A descoberta do inconsciente (2000), Um olhar a mais (2002) e A lição de Charcot (2005), todos publicados por essa editora, além de Teoria e clínica da psicose (Forense Universitária, 2000).
(4) Puericultura também pode ser chamada de Pediatria Preventiva e tem como objeto a criança sadia e seu alvo é um "adulto perfeito": fisicamente sadio psiquicamente equilibrado e socialmente útil.
(5) Rosa Maria Marini Mariotto graduada no Curso de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1987), mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná (1998) e é Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (2007). Atualmente é professora assistente nível III da Pontifícia Universidade Católica do Paraná na graduação e pós-graduação. lítica com crianças. Psicanalista Membro e Presidente da Associação Psicanalista de Curitiba.
cuidados cotidianos de um bebê, destacando que as educadoras no âmbito da educação infantil podem desempenhar tanto função materna quanto função paterna, dependendo do que a situação oferece, da posição que ocupam e de sua implicação em seu ato.”
Qual será o lugar do cuidador no exercício do oficio na Creche?Qual será a contribuição do cuidador na formação do psiquismo do bebê do qual está cuidando?Como a prevenção ocupa posição entre as funções de cuidar, educar e prevenir?Será a Creche um elemento a mais na Constituição do Sujeito?A Creche quando exerce provavelmente a função de Outro no desejo da criança passa a ser um elemento a mais na composição do desenho psíquico de um bebê.
Desenvolvimento
28 de Junho de 2010 – Cheguei a Creche, sentei-me ao chão recostada na parede em observação. Notei uma criança debruço que se virava de um lado para o outro, percebi que olhava um chocalho a sua frente. Em uma das viradas olha-me e sorri,ali estava o olhar! O olhar daquela criança fixo e quase sem piscar já falava sua linguagem sendo o convocador da construção do laço estruturante – o desejo, a partir do olhar-voz veio à vontade, instigando a trabalhar. O que acontece com poder de invocação deste olhar-voz?Deverá haver uma troca, esta troca é o olhar do prazer que existe na cuidadora transmitido para a criança, funcionando como sistema simbólico?
O Clínico ao se deparar com uma criança que não fala ou possue debilidades deverá supor, que exista uma subjetividade à espera de ser interrogada.
“O bebê em processo de Constituição do Sujeito necessita estar incluído no campo psíquico dos cuidadores. Um desejo que não pode ser anônimo é o motor inapreensível do Sujeito”. “Há uma responsabilidade a mais, nas clínicas dos primórdios: toda ação de investimento nestes primeiros anos da estrutura, tempo de inscrições significantes e construções, deixará marcas no proto – aparelho psíquico do pré-sujeito” (2)
“A prevenção e Intervenção Precoces deverá acontecer o mais a tempo possível supondo um Sujeito por vir” (3).
Retirei da Apostila de Estudos um trecho de grande importância e significado para a Clínica dos Primórdios descreverei abaixo: (4)
“Há que ter alguma coragem
Há que ter algum sonho
Correndo nas veias, e um
Grão de loucura faiscando na alma“ (Lya Luft)
Ou,
Apenas Desejo.
O que uma cuidadora transmite a um bebê, sem saber, quando cuida dele?
Quando o bebê humano entra em contacto com o Outro da relação, deixa o seu fundamento de ser de necessidade para se transformar em ser de desejo. Somos a única espécie que dá prioridade ao desejo que à necessidade.
Quando a criança observada balbucia algo como dá-dá-dá ele está dando significado ao encontro inaugural, não é um ruído, é um apelo como dizendo:
- Estou aqui desejo estar perto de você!Você me encanta!Desejo ter você colada ao meu corpo, este gesto me dá prazer! “A voz e o olhar, enquanto objetos pulsionais, delimitam as bordas que separam o corpo da mãe (cuidadora) do que será o corpo do bebê. Esses objetos têm a função de fundação tanto do sujeito como do Outro.” (5)
O triângulo clássico pai –mãe – bebê nos casos de crianças criadas em creches pelas equipes cuidadoras pode ser difícil discernir como é feito este laço primordial, pois, o laço primordial possui duas vertentes, são as funções de pai e mãe.
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(2) Trecho retirado do 1º modulo do Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – página 22
(3) (4)Trecho retirado do 1º módulo do Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – página 24.
(5) Apostila 7º Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – 3º Módulo. Página 55.
A Função Materna
27 de Julho de 2010 – A criança observada estava vestida com um short azul com dizeres em verde e uma blusinha verde com frisos azuis. Não senta sozinho, a cuidadora colocou o remédio em suas narinas, ele estava chorando e continuou gritando em um choro diferenciado, mais que choro!Foi tomar a mamadeira, o sugar parece dificultoso para ele, parece ter deglutição atípica, talvez seja devido a sua Síndrome. Ao acolher em seu peito esta criança, niná-la, dar-lhe alimento, seu olhar carinhoso, brinca com seu sorriso, conversa com ela fazendo comentários sobre o cheiro de limpeza de maneira carinhosa (fala particular), sem nenhum gesto de jogo corporal, como de morder o seu pé, apertar suas bochechas. Estava eu ali, observando todo o desenrolar deste processo, uma nova possibilidade de compreender o processo de subjetivação que contempla a elaboração da realidade psíquica do ser, incluindo o educador no papel de cuidador como ser de linguagem, como ser de desejo. Isto é supor que um sujeito se constitua a partir de sua inserção na e pela linguagem, por meio de um outro que, com seu desejo, marca-o como significante.
“Para entrar em contato com seu bebê, a mãe se toma por ele, ou melhor, ela o toma como um pedaço dela mesma.”
Função Paterna
27 de Julho de 2010 – A professora de expressão corporal está massageando as outras crianças, a criança em observação acompanha com seu olhar todos os movimentos que ela faz vez enquanto esta professora percebe que ele está a observá-la brinca com, fala palavras carinhosas, o ensaio de um sorriso aparece, aparece outro, até que vejo todo aquele corpo sorrir abundantemente para aquele Outro em um sorriso intencional. Enfim, naquele colo aconchegante da cuidadora aquele bebê se aninha e consegue mamar todo o conteúdo de sua mamadeira, recebendo os parabéns de sua cuidadora e da professora de expressão corporal. Começa então, uma observação de si mesmo, olha seu short, olha seu pé, olha seus braços e mãos, olha-se, interage com o seu corpo em uma integração maravilhosa. Percebe suas mãos na boca, suga seus dedos, pega seus pés, pega o brinquedo, o cubo o fascina, principalmente o de cor vermelha, apodera-se dele, olhando-o de perto, passa por ele engatinhando outra criança e ele oferece o cubo a ela, ela pega, ele se inclina com as mãos ao chão para chegar mais perto dela, então, neste instante a professora de expressão corporal o pega para fazer os exercícios, ele sorri e se deixa levar. O processo encontra-se em nível estrutural(conectividade) e não apenas funcional (programação).”O cérebro torna-se um tear encantado onde milhões de rápidas lançadeiras tecem um padrão em mutação, sempre significativo embora nunca persistente”. (6)
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(6) Trecho retirado do 1º modulo do Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – página35.
Ele e a professora se entreolham, ele balbucia da-da-da querendo se comunicar, ela o coloca deitado de bruços após massagear o seu corpo e o força a empurrar seu corpo para frente fazendo um movimento de gangorra, ele demonstra com sua expressão facial não desejar estar nesta posição, talvez desconfortante. A professora insiste, ele balbucia da-da-da desta vez com uma outra entonação. A professora compreende o seu gesto e diz a ele que é preciso ficar assim, é sabedora do seu incomodo mais é necessário fazer,então ele consegue responder ao seu pedido, arrasta o corpo para frente, o empurra de encontro ao chão como deslizando-o como a professora o estava ensinando,momento mágico aquele do entender, fazer, executar.Ali estava a lei, pelo tempo de aula a professora estabeleceu o corte, surgindo a renúncia a alguma coisa, a lei o proibi abrindo um leque de opções, diferente do conceito da regra “que é o princípio constitutivo de hábitos morais”. A “lei diz não faça isso, porém faça outra coisa, enquanto a regra prescreve categoricamente a prática de atos concretos” (7).
Como com seu ato levasse a exprimir o sentimento de que mesmo aquela criança não gostando do que estava fazendo, era necessário fazer, a imposição do limite estava sendo iniciada naquele momento, ali está à função paterna.
“A função paterna é um operador psíquico da separação. O laço primordial na sua vertente paterna introduz um corte. Ele corresponde à capacidade separadora do pai e à sua função reguladora da onipotência primordial da mãe.”
Indicadores Clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil
A cuidadora/educadora compreende os atos de intencionalidade da criança dando com a linguagem seja ela verbal ou não verbal, o significado para aquela ação. Quando a cuidadora percebe que a criança chora ou grita, ela particularmente sabe o que ela deseja, falando com ela por intermédio do mamanhês, troca de olhares de entendimento, convidando à liberdade de expressão. Ela percebe quando a solicitação da criança é um manhês, uma forma de chamar a atenção. A cuidadora/educadora passa a ser ponto de referência para a criança,ocupando a função de participante no processo de subjetivação dos bebês.No meu relato de minha observação na Creche vivenciei a seqüência dos indicadores clínicos de risco “desfilarem”em vários comportamentos da criança por mim observada.
03 de Agosto de 2010 – Carlos (8) está vestido com um conjunto de short e camiseta azul escuro de mangas curtas azuis claras com dizeres, parece ter acabo de tomar banho, seu cabelo penteado para o lado parece molhado.
A cuidadora observa a criança e declara: - “O Carlos (8) está entupido e não consegue sugar!!”. (sic)
Carlos(8) que estava chorando, para de chorar prestando atenção na cuidadora que o pega ao colo, este se agarra a ela, agarra sua blusa e esta ficando de pé aconchega a criança que acaricia seu rosto, sugando o leite da mamadeira. Esta criança presta a atenção em cada traço do rosto de sua cuidadora, apalpa seu braço, aperta suas mãos em seu peito, talvez a procura da necessidade de proteção. Carlos está mamando, enquanto mama manuseia o rosto da cuidadora, olhar manso, tranqüilo, momento mágico aquele. Este instante caracteriza o reconhecimento da cuidadora o significado de determinadas manifestações do bebê, quando a criança usa vários tipos de sinais diferentes para expressar suas diferentes necessidades, Carlos solicita a cuidadora e faz um intervalo para aguardar sua resposta, presta a atenção quando pressentiu que está sendo comentado algo e seu nome é falado. A criança procura ativamente o olhar da professora de expressão corporal, a cuidadora percebe que alguns movimentos da criança podem ser uma forma de chamar sua atenção, pois esta verbaliza a ação. A criança demonstra gostar ou não gostar de alguma coisa com expressões faciais, como exemplo prováveis momentos em que morde os braços em um abraço ou bate com seu rosto no chão acolchoado.Para sabermos se as operações ocorreram a tempo e com sucesso recorreremos aos sinais de marcadores de risco que indica a faixa etária do comportamento psíquico da criança, conforme descrevo abaixo o que ocorreu no dia 20 de Julho de 2010 em minha observação.
20 de Julho de 2010 - A cuidadora relata que a criança que observo, não tirou nenhum cochilo até o momento.
Quando cheguei a meu horário habitual e após permanecer 01 hora e 30 minutos sentada, pensando que o bebê que eu observava tinha faltado, a cuidadora exclama que este bebê estava dormindo, ao chegar ao berçário ele estava parado, quieto, olhando o teto, o conceito da insônia calma como sendo um sinal que pode passar muito tempo despercebido pela Instituição, trata-se de bebês que são colocados após mamarem em seus berços, mais não dormem,permanecem quietos, olhar fixo no teto, não dormem, não brincam, não apelam,parecendo em estado letárgico de ruptura em relação ao mundo exterior. Em leitura de estudos (9), deparo-me com a seguinte frase: “Por causa de seu aspecto silencioso, a insônia calma pode ser particularmente perigosa porque ela é considerada como um sinal positivo, sobretudo em Instituição, mas também por parte de mães deprimidas, ou pouco disponíveis. Em minha observação levei em consideração outro sinal significativo, o sinal de pedalar na criança, provavelmente ela responde com o pedalar para uma cuidadora e a professora de expressão corporal, todo seu corpo se movimenta para a voz que lhe fala, mesmo que de longe esteja, antecipando-se para ser tomado nos braços, trata-se de uma diferenciação de laço. A alimentação, o olhar, necessita de uma virada, “essa passagem do real ao simbólico de que nos fala Lacan no seminário relação de objeto”.
Para sabermos se as operações ocorreram a tempo e com sucesso recorremos aos sinais de risco o mais cedo possível.
“O risco psíquico se dá pela interrupção da continuidade dos laços afetivos e referenciais entre o Recém nascido e sua mãe representa situação de risco para ambos, assim como para o vínculo entre eles.” (7)
As cuidadoras e principalmente a professora de expressão corporal parecem reconhecer o grito, o choro, o silêncio, a calma e outros comportamentos como significante, operando como intérprete, indicadores de sinais de risco do desenvolvimento infantil.
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(7) livro: Cuidar, Educar e Prevenir: as funções da creche na subjetivação de bebê – Rosa Maria Marini Mariotto- página 113.
(8) Carlos é um nome fictício, resguardo de identidade da criança observada.
(09) A Clínica Precoce: O Nascimento do Humano-Graciela Cullere-Crespin, Casa do Psicólogo, SP, 2004.
Considerações Finais.
A Intervenção é precoce se ocorrer antes que padrões de postura e movimentos anormais se instalem, sendo os primeiros meses o período ideal para iniciar o programa. Na prática muitos bebês são encaminhados tardiamente às instituições, apresentando deficiências, restringindo a intervenção muitas vezes impedindo o objetivo a ser alcançado de prevenir as alterações patológicas no desenvolvimento infantil, ela não consiste em antecipar a aparição de um sintoma e sim, no mais a tempo possível através deste trabalho detectar o normal/patológico no inicio do desenvolvimento. O que é prevenir? Em que tempo fazer uma prevenção?Compreendo a prevenção como a antecipação de uma intervenção, sendo uma justificativa da possibilidade de diagnosticar precocemente e de estabelecer um diálogo interdisciplinar para que se possa intervir o mais cedo possível, a partir dos sinais indicadores de risco citados acima, detectados na relação mãe-bebê, cuidadores/educadores– bebê, no caso de uma creche ou nos sinais pulsionais do bebê. Na observação no mais a tempo possível, no início do desenvolvimento do bebê, poderemos detectar a partir dos sinais de risco as psicopatologias antes que elas se instalem e essas estruturas se amarrem, ou para possibilitar uma melhor instauração da estrutura psíquica.
Há intervenções imprescindíveis que devem preceder um diagnóstico provavelmente definitivo, como por exemplo, nos Transtornos Globais do Desenvolvimento e Transtorno Invasivo de Desenvolvimento.
Referências Bibliográficas
Crespin, Graciela Cullire. A Clínica Precoce: O Nascimento do Humano, Coleção dirigida por Claúdia Mascarenhas Fernandes, São Paulo, Casa do Psicólogo Ed. 2004.
Mariotto, Rosa Maria Marini. Cuidar, Educar e Prevenir: as funções da creche na subjetivação de bebês, São Paulo : Escuta Ed., 2009.
Quinet. Antonio.Um Olhar a Mais ver e ser visto na psicanálise, 2ªedição,Rio de Janeiro :Jorge Zahar Ed., 2004
Apostila – 1º. 2º e 3º Modulo do 7º Curso de Capacitação em Saúde Mental para Intervenções Precoces – Clínica dos Primórdios e Transtornos Globais do Desenvolvimento.1º Modulo: 29 de Maio de 2010, 2º Modulo : 26 de Junho de 2010, 3º Modulo : 24 de Julho de 2010.
Boa tarde Cida!
ResponderExcluirGostei muito do seu post!
Quero fazer a capacitação este ano, vc recomenda?
Tem alguma programação que possa me passar, pois no site ainda não tem. Como sou de valinhos/sP preciso me programar para fazer o curso, mas quero ver a programação. Vc pode me ajudar? Grata
Rosângele Prado
www.rosangeleprado.blogspot.com.br
Psicologia da Maternidade e Cuidados com a Infãncia.