Autismo -Uma forma diferente de ver o mundo
“Pela linguagem do corpo, você diz muitas coisas aos outros. E eles têm muitas coisas a dizer para você. Também nosso corpo é antes de tudo um centro de informações para nós mesmos, e para os outros ao nosso redor.”
Pierre Weill
Agradecimentos
Para aqueles que eu amo:
São mais numerosos
Do que eles possam imaginar.
Para aqueles que me emprestaram seu entusiasmo e seus textos.
Para todos os que se reconhecem como seres de ternura.
Em uma criança ausente,
Pequena frágil, angelical...
Seu cabelo enrolado, seu olhar vazio, seu medo de olhar
Ora agressivo ora dócil defeso que o inconsciente faz valer!
Como compreender o seu estranho passo a caminhar,
como compreender que seus olhos brilham no vazio,
sua mente lenta.
Olhos que olham e não vêem quando sua comida cai fora do prato,
Como entender que não entendo o porquê,
Mais que você com um sorriso nos lábios, me estimulam a tentar mais uma vez.
Como fazer perguntas se não sei falar com os lábios e sim com o coração!
Como compreender a minha linguagem se a poesia e a metáfora tomam conta do meu caminhar!
Que é difícil transformar tudo que sinto em palavras, converter meus pensamentos se nem mesmo os consigo entender!
Ao colocar CDs para tocar marcando pausas em cada música para falar!!!
Conseguindo expressar com o toque, a confiança e a necessidade de me comunicar,
minha amiga.... um dia volto para te encontrar!
Ao escutar, embora não saiba expressar em palavras, mesmo tendo algo a dizer,
fala mais alto a voz do coração,
Aqueles que me amam do jeito que sou não como os outros gostariam que fosse.
Este menino que cheio de esperança conquistou meu coração e cresceu em mim o desejo de ser Psicóloga!
Obrigada, pelo grande, imenso aprendizado, artista - autista.
Cida
.
“Amigo é coisa para se guarda
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que a América ouviu
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.”
16 de Janeiro de 2009 - Último encontro terapêutico com o paciente D.onde sua expressão de dor, angústia e esperança estão no CD escolhido em sessão.
Milton Nascimento, Canção da América.
Resumo
Durante muito tempo, associei a ternura ao contacto físico, no gesto percebido, oferecido com o encontro dos corpos, sendo esta não somente física, tendo a sensação como companheira, emoção imprevisível, olhar, movimento secreto e fugaz, associado ao conjunto de sentidos. Por este motivo associo todas as linguagens do corpo à ternura. No estágio na Associação Fluminense de Reabilitação, setor de Neurologia Infantil deparei-me com um caso clínico de diagnóstico em Transtorno Invasivo de Desenvolvimento acrescido de hiperatividade e agressividade, passando aproximadamente dois anos e meio nesta Instituição. Sentindo a necessidade de acompanhar em aconselhamento a mãe desta criança, o pai separadamente e o casal. O Autismo caracteriza uma desordem na qual uma criança jovem não pode desenvolver relações sociais normais, comporta-se de modo compulsivo, ritualista, geralmente não se desenvolve dentro dos padrões normais. Em quase 03 anos em aconselhamento tendo utilizado várias ferramentas infelizmente, não consegui fazer entender aos pais deste menino a necessidade de uma organização familiar e o significado de ter uma criança autista em seu convívio.O objetivo deste trabalho é identificar, demonstrar como esta criança autista se relacionava em sessão, sua adaptação, sua desordem inicial, a organização de idéias observadas tornando real o imaginário. Método: Com vistas a alcançar os objetivos estipulados em supervisão, optarei pelo estudo qualitativo, prospectivo, exploratório, estritamente experimental. Os avanços em sua compreensão são conduzidos a uma nova perspectiva terapêutica. Esta revisão foca o histórico, a nosologia e as características clínicas, associadas ao Transtorno Invasivo de Desenvolvimento e seu ambiente familiar.
Palavras-Chave: Autismo/terapia; Desenvolvimento infantil; aconselhamento familiar.
Resumen
Durante mucho tiempo, yo asociaba sensibilidad al contacto físico, el gesto percibido, se ofreció a encontrar los cuerpos, que no sólo es tener la sensación física como un compañero, emociones impredecibles, ojo, movimiento secreto y transitorio, asociado con el conjunto de direcciones. Por lo tanto nos unimos a todos los lenguajes de la sensibilidad del cuerpo. En el escenario de la Asociación de Rehabilitación del Fluminense, el sector de Neurología Infantil me encontró con un diagnóstico clínico del autismo acrecido en Hyperatividade e agresividad, pasando aproximedemente dos años y medio en esta institución.
Sentir la necesidad de seguir el consejo de la madre de este niño, el padre y la pareja por separado. El autismo que caracteriza a un trastorno en el que un niño pequeño no puede desarrollar relaciones sociales normales, se comporta de una compulsiva y ritualista, por lo general no se desarrolla dentro del rango normal. En casi 03 años en el asesoramiento y ha utilizado diversas herramientas por desgracia no podía hacer que los padres entiendan la necesidad de este niño para una organización de la familia y la importancia de tener un niño autista en su vecindario. El objetivo es identificar, demostrar cómo este niño autista estaba vinculada a la sesión, su adaptación, su trastorno inicial, la organización de las ideas observadas hacer lo imaginario real. Método: Con el fin de alcanzar los objetivos estipulados en la supervisión, optar por el estudio cualitativo, prospectivo y exploratorio exclusivamente experimental. Los avances en su comprensión se llevaron a un nuevo enfoque terapéutico. Esta revisión se centra en la historia, la nosología y clínica, asociados con trastorno generalizado del desarrollo y su entorno familiar.
Palabras clave: Autismo / tratamiento, desarrollo infantil, consejería familiar.
Introdução
Este trabalho é conseqüência de minha experiência na Associação Fluminense de Reabilitação (AFR), Instituição que trabalha com uma equipe multidisciplinar, quando de meu estágio de aproximadamente dois anos e meio de duração.
Minhas atividades foram direcionadas ao trabalho com crianças especiais com problemas neurológicos incluindo o autismo.
O departamento que atuei nesta Associação coordenada pela Psicóloga Lilia Maria Nogueira Lima e Jacqueline Sardinha Campos da Silva (1) é a Neurologia Infantil.
03 de fevereiro de 2007, meu primeiro dia, o conhecimento brotava as idéias primárias a respeito do conteúdo a ser estudado, este completamente alheio ao que estava estudando em minha graduação.
Deparo-me com a teoria Lacaniana – Jacques Lacan e crianças debilitadas.
Fiquei assustada!Perguntas sem respostas saíram do meu ser:
- Como dar conta? Como começar? Como me apoderar daquele lugar sem conhecer?Qual o meu objetivo e objeto para o trabalho? A impotência do não saber!Meu grande desafio, desde o inicio, era quanto ao posicionamento que deveria tomar, enquanto integrante desta equipe qualificada, que utilizava instrumentais técnicos bastante objetivos.
Qual a demanda desta equipe, da criança em tratamento e sua família, em relação ao psicólogo?Quais seriam as contribuições da psicanálise no processo de reabilitação?Que tipo de linguagem iria usar com crianças portadoras de deficiências?Seria possível usar a psicanálise nestas crianças? Teria que ouvir a voz do coração! As idéias fervilhavam, a maior delas indefinida, ao ver aquele menino. Milhões de perguntas, idéias, busca de conhecimento.
O primeiro instante em que meio assustada, atônita presenciei um pequeno menino magro, olhar apático, vestido com um short surrado, uma camiseta por cima da outra, cabelos despenteados, remelas nos olhos, nariz a fungar. Chupeta na boca a sugar de maneira expressiva, como se suga o leite materno. Invade a sala, acende e apaga as luzes, olhar perdido, vago, sem nenhum traço emocional; agitado, hiperativo com movimentos estereotipados com a cabeça e tronco. Suas mãos circulando em seu corpo como um pássaro no momento em que se coloca na posição de inicio de vôo.Sua sandália escondia uma meia encardida que no primeiro instante descobre um pezinho pequeno como se não suportasse aquele peso.
Correndo no corredor entre a sala de espera onde me encontrava com outras estudantes de psicologia, sem chamar atenção, sem olhar ninguém adentra na sala 05 e fecha a porta, não acende a luz. Logo a terapeuta que o atende abre a porta, acende a luz, tornando a fechar.
Escutamos batidos, gritos que mais pareciam urros secos de dor.
Passou-se aproximadamente 20 minutos, a calma volta ao escutarmos a música. A terapeuta canta, bate palmas, percebemos do outro lado da porta, na sala de espera.
- Será um quadro patológico?Será um recurso, uma ferramenta, um talento ou potencial que por não saber usar se volta contra o sujeito trazendo muito sofrimento, o isolamento, o medo. Como se processa o nascimento e a constituição deste sujeito, qual a estrutura psíquica?
Meu primeiro paciente, um menino de 03 anos com três hipóteses diagnósticas: A primeira hipótese de diagnóstico é a doença congênita com atraso no desenvolvimento psicológico de aprendizagem, de linguagem estereotipias motor, baixa interação social. (ECI)
A segunda hipótese diagnóstica é DI (Déficit Intelectivo).
O terceiro diagnóstico formulado é de Autismo acrescido da hiperatividade e da agressividade.
Nasceu de uma gravidez inesperada, cesariana, não chorou ao nascer, não mamou no peito (não foi estimulado pela mãe).
A psicomotricidade lenta, andando aos 26 meses. Despertou sua fala aos 32 meses parando completamente nesta época, não falando mais.
Teve refluxo durante toda a fase de bebê até 02 anos. Acometido por várias doenças respiratórias, tipo: bronquite, sinusite, etc., EEG normal. Sem crises convulsivas.
Freqüenta a escola desde 02 anos e 02 meses, período de adaptação de 03 meses.
Mãe relata que a criança é agressiva, principalmente com ela, não interage com crianças e não para, utiliza fraldas, mas sabe conter a urina e os esfíncteres. Mãe prefere colocar as fraldas para não ter trabalho.
Pais separados, separação ocorrida no mês de fevereiro de 2006.
Uso continuo de chupeta, coloca a chupeta toda em sua boca e suga. O ritual de levar o dedo à boca, aliás, leva todos os objetos a boca, coloca tudo o que vê na boca. Não aceita higiene bucal, troca chupeta de 3 em 3 dias.
Adora música, passando horas a colocar e trocar CDS. Come sozinho (com supervisão da mãe ou da irmã), veste-se e se calça sozinho. Gosta de tudo que gira, fica isolado na escola.
Desenvolvo o trabalho de estimulação precoce duas vezes por semana, em uma sala com um tatame, um espelho e brinquedos que uma criança de classe média teria em seu quarto.
Em 09 de fevereiro de 2007- ao receber a notícia da troca de terapeuta, Daniel (2) sinalizou e percebeu a mudança ficando incomodado (acendendo e apagando a luz da grande sala, apresentando uma agitação interna.), passando por mim parecendo não me ver, apagou e acendeu a luz percebendo como é ficar no escuro e depois no claro - conceito de ausência x presença, conceito de angústia na visão de Jacques Lacan.
Sem olhar, rodando a cabeça, foi para sua sala de costume. Atrás dele, seguimos eu e a terapeuta que estava deixando a AFR por ter acabado seu estágio.
A terapeuta começou a falar sobre a sua saída, dando a ele a visão de despedida, de ausência. Sentados no tatame eu, ele e a terapeuta. Ele permanecia no vazio.
Em 12 de fevereiro de 2007 - ao receber a notícia pela segunda vez, da troca de terapeuta, Daniel (2) sinalizou e percebeu a mudança ficando incomodado (acendendo e apagando a luz da grande sala, apresentando uma agitação interna.), passando por mim parecendo não me ver, apagou e acendeu a luz percebendo como é ficar no escuro e depois no claro. Sem olhar, rodando a cabeça, foi para sua sala de costume. Atrás dele, seguimos eu e a terapeuta que estava deixando a AFR por ter acabado seu estágio. A terapeuta começou a falar sobre a sua saída, dando a ele a visão de despedida, de ausência. Sentados no tatame eu, ele e a terapeuta. Ele permanecia no vazio. (ato ritualístico).
Meu primeiro encontro, meu primeiro olhar para um caso de Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. As causas do autismo infantil permanecem desconhecidas, como todo este assunto são suposições, são hipóteses, com muitos estudos em torno do tema, procurarei humildemente me deter aos meus estudos nas referências bibliográficas constando no final deste trabalho e minha modesta experiência como estudante de psicologia e minha vivência pessoal.
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(1) Dra Lilia Nogueira Lima e Dra Jacqueline Sardinha Campos da Silva – Psicoterapeutas da Associação Fluminense de Reabilitação com mais de 20 anos de experiência no atendimento a crianças portadoras de deficiências físicas e mentais, responsáveis pelo setor de Neurologia Infantil da Instituição.
Autismo – Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
.O que é o Autismo?
“Documentário que tive acesso, chamado “Autismo – Os diferentes tipos de Autismo (Google vídeo)” – trabalho de Leo Kanner (2) no Johns Hopkins Hospital onde a principal pergunta é:
-“ Como reconhecer uma criança autista no meio de tantas crianças?”
Toda a tentativa de definição do autismo tem início na primeira descrição por Leo Kanner em 1943 no artigo intitulado: “Distúrbios autísticos do contato afetivo” (“Autistic of affective Contact”). (3) São chamadas autistas as crianças que têm inaptidão para estabelecer relações “normais”- relações padrão de lhe dar valor de comunicação. Pois, o Outro nada representa, é o nada, encontrasse no vazio, sendo o vazio o próprio ser autista. (Visão da Psiquiatria)
Essas crianças apresentam igualmente estereotipias gestuais, uma necessidade imperiosa de manter imutável seu ambiente material, ainda que dêem provas de uma memória freqüentemente notável.
Olhando de uma forma geral, seu aspecto exterior, um rosto inteligente, uma aparência física normal.
No momento atual, nota-se significativa evolução na abordagem das questões relacionadas às pessoas com deficiência. Já se reconhece as potencialidades desses cidadãos, bem como se respeita suas limitações. Posturas assistencialistas cedem lugar a propostas que visam à garantia dos direitos das pessoas com necessidades especiais. Especificamente para as pessoas com autismo.
Por este motivo, escolhi o tema Autismo: Outra forma de ver o mundo para meu artigo de conclusão de minha graduação. Neste sentido utilizarei ferramentas direcionadas ao brincar como linguagem, articulando no entrelace do simbólico, do real e do imaginário, ocuparei o lugar de suporte a este percurso. Comentarei sobre minha experiência com Daniel, procurarei por intermédio do conhecimento da teoria Lacaniana e Winnicotiana desenrolar em meu artigo a relação estabelecida de amor, carinho, amizade e confiança que tornaram possível ver através do transtorno um sujeito desejante.
Entretanto, pretendo ao longo deste trabalho, descrever o percurso de uma estudante de psicologia, trabalhando com estimulação precoce, técnica que possibilita a emergência do sujeito, fazendo com que ele possa verbalizar, sem levar seus sentimentos para o concreto, visto pela psicanálise.
O sujeito do desejo, aquele sujeito que emerge a partir dos sonhos, sintomas, enganos, lapsos a atos falhos. Considerando, sobretudo, às condições que possibilitam a emergência do sujeito, que está para além dos significantes que lhe são oferecidos, tendo em vista, os aspectos da relação mãe- filho autista e os diferentes rumos que estes possam vir a tomar, de acordo com a posição da mãe frente à castração. (função paterna).
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(2) / (3)Dr.Leo Kanner (1943) – Médico austríaco, residente em Baltimore, nos EUA. Descreve casos desde 1938, o primeiro Donald T.
(4) Informações contidas no site da ASA-Autism Society of America (www.autism-society.org, 1999)
Sinais de Autismo
Os sinais de autismo normalmente aparecem no 1º ano de vida e sempre antes dos 03 anos de idade. A desordem é duas a quatro vezes mais comuns em meninos do que meninas.
Na publicação do artigo intitulado: “Distúrbios autísticos do contacto afetivo” (“Autistic disturbances of affective contact”), Kanner ressaltava que os sintomas fundamentais, o isolamento autístico, estava presente na criança desde o início da vida. Foi sugerido por ele que se tratava então de um distúrbio inato.”
Após estudar com Heisenberg, Kanner em 1956, observando que a síndrome pode se revelar, depois de um desenvolvimento aparentemente normal, no primeiro ou segundo ano de vida.
Kanner considerou dois sinais como patológicos, o isolamento autístico (aloneness) e a necessidade de imutabilidade (não sujeito a mudanças)-(sameness), excluindo a linguagem. (4)
Já em 1978, a sintomatologia foi organizada por Rutter, Orniz e Ritvo (1976) e no D.S.M.III(1980), como uma incapacidade de desenvolver relações sociais, um déficit no desenvolvimento da linguagem, respostas “anormais” (fora do padrão) ao meio ambiente, em particular, estereotipias gestuais e uma resistência à mudança e por último o fato de que os sinais aparecem antes da idade de 30 meses.
O comportamento social de uma criança Autista é ficar isolado do externo, de se adaptar a ter só si mesmo para dialogar, colocando-se alheio ao mundo externo, como o artista quando em criação se torna um ermitão.
Esta relação me levou a estimular esta idéia de monólogo em diálogo por intermédio do som, da música, trazendo meus CDS para nosso espaço terapêutico tentando com isto uma motivação para a comunicação.
Não será um isolamento necessariamente desagradável ou doloroso, se este processo for, em si, prazeroso para quem o pratica?
“O exercício da curiosidade, da descoberta e da criação contém em si uma espécie de satisfação muito singular e legítima: a de adiar a morte.” Tolipan (2002)
A criação é o maior inimigo da morte. Mas o pensamento criativo exige uma liberdade que se torna impossível sem algum isolamento. “Talvez por isso eu tenha me imposto um estudo solitário sobre a dor e o adoecer, que me pareciam, em princípio, intimamente relacionados.” Tolipan (2002).
Então, procurei apresentar apenas um estimulo, focando este para trazer à linguagem, a fala, a motivação de saber entender e de se fazer entender. O simbólico entendido enquanto lugar do que faz falta ou que foi perdido. Esta falta recebendo, desde a origem, uma significação propriamente humana, por meio da instauração de uma correlação entre a falta e o significante que a simboliza, para deixar sua marca na palavra e eternizar o desejo, em sua dimensão de irredutibilidade. Meu trabalho é de estimular e não invadir meu paciente, oferecendo-lhe o espaço necessário para que ele consiga dividir comigo sua angustia que se coloca em seu silêncio deixando de ser.
Quando da ocasião dos CDS que levávamos para as sessões, CDS de minha propriedade, a manifestação do desejo era dele, pois quem escolhia as músicas era ele. Passando a ser nossa via de comunicação, sendo após um tempo de confiança e parceria, criando um vínculo silencioso, que eu e ele sabíamos conduzir. A partir deste comportamento, Daniel passou a levar seus próprios CDS, recusando os meus, a possibilidade de estar sendo màgicamente feita à dialética em meio ao silêncio. Creia, acontecia em nossas sessões.
As características sintomáticas de um Autista são faltas de reação aos outros e de interesse por eles, sem comportamento de apego normal.
Em conversa com a mãe de Daniel (3), pois a atendia uma vez por semana para uma avaliação de comportamento, sendo pela transferência estabelecida um atendimento psicoterápico, pois sabedora que a representação da doença para mãe e filho, está marcada por conteúdos inconscientes que podem ser melhor apreendidos com a escuta psicanalítica. Não bastando o trabalho pedagógico do tipo:
- Você deve aceitar seu filho como ele é ele deve participar da vida social da família, ele deve receber muita atenção e por aí vai... Este espaço concedido a esta mãe, espaço para seu luto, sua dor, suas angustias deslocava o seu olhar do significante da criança, o que acontecia com seu filho. Este atendimento seguia por todo o tempo de acompanhamento a criança com a orientação e supervisão da Dra.Jacqueline Sardinha Campos da Silva intervindo.
Ela em relato, conta que na primeira infância, ao dar colo a seu filho, ele assumia uma postura rígida. Um bebe muito quieto, diz a mãe, não chorava, não pedia alimentação já que seu seio foi negado. ( SIC)
Como desculpa fala que pouco leite tinha quase nenhum, Daniel não gostava de colo, ficava com seus olhos distantes parados em um só ponto.
A mãe confessa que adorava seu comportamento porque a deixava fazer os afazeres domésticos, cita que parecia nem ter criança em casa. ”Era um bebê bonzinho, que não dava trabalho nenhum”, afirmava. (SIC)
Teoricamente, a falta de contacto visual, ausência de resposta, de sorriso e de mímica, a criança autista não distingui ou parece não distinguir os pais dos adultos estranhos. As pessoas que delas se ocupam são tratadas com indiferença.
O autista se comporta como se estivesse só, como se os outros não existissem, não procuram ser acariciadas e não esperam ser reconfortadas pelos pais quando têm dor ou sentem medo. Às vezes se interessam por alguma parte do corpo do Outro, sua mão, um detalhe de roupa, um objeto.
Não gostam de brincar em grupos ou desenvolver laços de amizade. Mostram pouca emoção, pouca simpatia ou empatia pelo Outro.
A partir de seu crescimento poderão desenvolver uma maior ligação.
O que é a dor física para o autista?
Quando uma criança autista apanha ou se auto-flagela, ela ri, parece ter prazer com o ato, deixando confusos seus pais. O que acontece com a sua imunidade?Sua mãe relata que seu filho Daniel dificilmente adoece, em leituras constatei a imunidade física de casos relatados em que crianças autistas poderiam ter provocado danos irreparáveis ao seu corpo (engolir tesouras, grampeadores, etc...) e nada acontecer.
Será que a doença mental, o transtorno, o desconforto de ser diferente poderá ser um recurso defensivo do próprio organismo que se voltasse contra nós porque não o conhecemos ou porque não sabemos usá-lo?A esfera, a bola, a roda os fascina.
Essa estereotipia é singular no reconhecimento de um portador de Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
Muitos autistas geralmente não falam verbalmente, não emitem nenhum som ou resmungo. A impressão que existe é que são surdos, porque não respondem a nenhum estimulo, ficando parado como se estivessem longe, fora da realidade.
O resultado da audiometria feita assim que Daniel (3) resolveu parar de falar, a partir de 29 meses, (chegando a falar papai e mamãe, improvisando um diálogo) demonstrou atenção e localização da fonte sonora para sons graves. Responde ao chamado do próprio nome, seu sono é normal.
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(3) Daniel – nome fictício, resguardando a identidade de meu paciente.
Sua mãe confessa não aceitar uma escola especial para seu filho, descrevendo um desenvolvimento normal até 29 meses, começando a partir disto a observar os sintomas.
Os sintomas maiores para diagnóstico de um quadro de Autismo estão ligados ao estímulo sensorial e os distúrbios do desenvolvimento. Podemos observar uma hipo ou hiperatividade a esses estímulos e uma alternância desses dois estados em diferentes ocasiões e durante períodos que variam de horas ou meses. Quando os autistas são hipersensíveis às estimulações, eles parecem ter um déficit sensorial. Isso explica que o diagnóstico de surdez ou de cegueira pode às vezes ser suspeito, ainda que não haja nenhum déficit primário de percepções.
Ao que diz respeito à audição, pode existir uma ausência de respostas a estímulos sonoros (sons ou comandos verbais) qualquer que seja sua intensidade ou brutalidade, inversamente, uma sensibilidade exagerada aos ruídos pode alterar, levando a criança até a proteger os ouvidos com as mãos. Às vezes ela procura estimulação auditiva, a exemplo esfregando uma superfície e pondo o ouvido bem perto para escutar, rangendo os dentes ou batendo nas orelhas. (sinais de escuta).
Portanto, as crianças com o Transtorno Invasivo do Desenvolvimento poderão ter sensibilidade ao escutar alguns sons, agudos e graves e sentir um grande incomodo sendo insuportável sua escuta, deixando-os irritados e possivelmente agressivos.
Outras percepções sensoriais como tocar, o olfato ou o paladar, são também perturbadas.
A criança pode ter respostas excessivas ou atenuadas ao tocar, à dor, á temperatura, durante os primeiros anos de vida, ela nem sempre reage aos fenômenos dolorosos como os cortes, as quedas ou as injeções, como também pode não tolerar o contato com um tecido particular em seu corpo. Mas, a fascinação por objetos giratórios está sempre presente, a criança não tem vertigens nem sonolência.
Seu modo de colocar seu corpo em um balanço estereotipado, podendo mostrar aversão às estimulações como entrar em um elevador ou automóveis.
Caso Clínico
Sessões
No dia 16 de Fevereiro de 2007- na sala de sessões, Daniel inicia seu balanceio ritualístico, depois de mastigar um biscoito. Fungava de vez enquanto, passava o dorso de seu braço no nariz, estava resfriado, geralmente seu estado. Sua mãe interrompe a sessão para lhe entregar o seu lanche, colocando-o em cima da mesa. Daniel agarrou-se a ela por instantes, sendo acalmado pela antiga terapeuta. Ele pega um biscoito em cada mão e balança. Entrega a garrafa de suco para a antiga terapeuta, parecendo um pedido para que ela se encarregasse de abri-la, neste dado momento a terapeuta indicou a minha pessoa como sua substituta.
Daniel até então, não demonstrara reconhecer a minha presença no recinto, começou a se desorganizar de tal maneira, batendo com sua cabeça na parede, muito agitado, gritando,emitindo sons guturais, ininteligíveis, enquanto agitava os braços como se fosse voar. Não conseguindo nenhum tipo de controle. Sentando-se em um balanço fetal, batendo com suas mãos em sua cabeça, em seus ouvidos, com força, como não querer escutar aquela quebra em sua rotina
O que fazer naquele momento?Como estabelecer um contacto com alguém que não quer contacto?É um sintoma?Se este é um sintoma será um bom sinal?Quantas perguntas sem respostas se passam em minha cabeça, a única atitude seria a ausência, do mesmo modo como ele se colocou todo o tempo em que estive presente. Assim fiz, apaguei a luz, sai e bati a porta. Utilizei a sua linguagem! Apagar e acender?Ausência e presença.
Após alguns minutos encontro em outra sala 02 fantoches representativos de 01 boneco de cabelos escuros, uma boneca com um coque de cabelos grisalhos, o boneco vestido com uma camisa social poída e a boneca com um vestido largo, mangas de renda e gola role. Tive o cuidado de ao entrar fechar rapidamente a luz, acendendo em seguida, mas, desta vez mantendo meu rosto coberto pelos bonecos. Nomeei os bonecos,quando Daniel escutou o nome Jorge ficou atento,percebi que aquele nome significava algo para ele, senti a boa escolha que havia feito. Meu primeiro contato parecia ter sido estabelecido, provavelmente começávamos uma transferência positiva.
A minha relevância pessoal foram às respostas corporais que tive deste menino, vendo um sujeito de desejo, vendo que mesmo sem ter uma linguagem em padrões normais ele parecia se comunicar comigo, naquele momento por intermédio de marionetes mais tarde por intermédio de seus e meus CDS. Quando nos entendíamos ele retirava o CD e colocava outro seguindo a seqüência de nossa conversa. Estabeleceu-se uma dialética sem fala, a partir de minhas intervenções.
Ele parecia escolher suas questões, seus conflitos e utilizava como fala seus CDS, a partir da música. Quando provavelmente nos entendíamos,quando eu pontuava, ele retirava o CD e colocava outro seguindo a seqüência de nossa conversa, como se estivesse respondendo ao seu impulso,leitura meramente experimental.
Minha relevância social, cultural ou histórica de meu trabalho in lócus foi à abertura com os seus pais, onde paralelamente e paulatinamente tentava obter respostas para avançar no meu planejamento de tratamento, sempre sob orientação de Dra.Jacqueline.
O fascínio é a música que se desenrola na fala deste sujeito desejante, é quando a linguagem se desenvolve, tendo valor de comunicação, antes caracterizada de forma simbólica (já que não havia fala e sim gestos como pegar em minha mão e utilizá-la como se fosse à dele), por uma ecolalia (repetição automática involuntária) imediata e retardada ou repetição de frases estereotipadas (utilização “do pronome” “tu” quando deveria utilizar o” eu”).
Encontrei significados e significante no tratamento musica terapêutico, sendo este o meu instrumento de trabalho no enfoque psicanalítico.
O gestual do paciente, possibilita um desenvolvimento afetivo-emocional com o máximo de segurança de expressão de sentimentos e de organização internamente na direção da autorealização.
No enfoque psico-analítico, representado por Winnicott, o brincar tem um significado muito amplo, dizendo respeito não só a criança, quanto ao adulto.É talvez, apenas no brincar que a criança ou o adulto fluem sua liberdade de criação e busca do eu mesmo(Self).
Isso dá indicação para o procedimento terapêutico: propiciar oportunidade para a experiência e para os impulsos criativos, motores e sensórios que constituem a matéria prima do brincar.
É com base no brincar, que se constrói a totalidade da existência experencial do homem.Não somos mais introvertidos ou extrovertidos,experimentamos na área dos fenômenos transacionais, no excitante entrelaçamento da subjetividade e da observação objetiva, numa área intermediária entre a realidade interna do indivíduo e a realidade compartilhada no mundo externo do indivíduo.
Como estudante de psicologia desenvolvi um experimento com a estimulação do brincar de falar com música com o Daniel, brincávamos com o corpo como expressão de um sentimento ou idéia, uma forma de linguagem, a entrada no simbólico.Com a estimulação precoce busquei a possibilidade de uma imagem corporal positiva, de uma pessoa desejante, que poderia desenvolver sua autoestima, um corpo que inicialmente deu prazer ou não ao outro e que possa ter prazer consigo mesmo, se descobrindo.
Trabalhando com a família de Daniel (mãe,pai e irmã) pensei na possibilidade que a mesma se estruturar diante da realidade, integrando o Daniel na mesma e na comunidade em que vivem, tendo acesso a todos os dados em relação ao meu paciente, para que tivessem condições junto ao equipe de reabilitação e a criança autista, assumir e tomar decisões de forma madura.
A sociedade costuma padronizar as pessoas como "normais", quando exercem uma profissão, são casados e possuem filhos, mesmo que, preconceituosamente, sejam tidas e, não raramente evitadas, por parecerem "esquisitas" ou diferentes da maioria das pessoas conhecidas famílias onde pessoas fogem dos padrões de normalidade com algum membro portador do Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. Para se alcançar melhor compreensão sobre o autismo e as implicações contidas no quadro sindrômico, visando a educação da criança autista, é preciso ter conhecimento sobre o desenvolvimento normal da criança e suas funções desenvolvidas, para que haja distinção do que seja realmente um comportamento autista. Discernindo suas características principais, seus limites, seu potencial capacitador, suas necessidades e prioridades que precisam ser estudadas e trabalhadas, com a finalidade de se proporcionar à pessoa com autismo, maior estabilização emocional possível e nível de desenvolvimento global mais próximo da normalidade.Pessoas com autismo apresentam, desde cedo, um distúrbio do desenvolvimento, principalmente, relacionado a sua comunicação e interação social. Mas, por outro lado, podem apresentar incríveis habilidades motoras, musicais, de memória e outras, que muitas vezes, não estão de acordo com sua idade cronológica, apresentando-se bem mais adiantada do que deveriam estar.Acreditando neste fato, experimentalmente, intuitivamente convivi com a dificuldade tendo apenas uma estratégia gratificante que é aprender que com o amor, deixando fluir esse sentimento de dentro para fora de nós buscando o próximo.
Portanto, passamos muitas vezes pela vida olhando-os sem vê-los.
Sessões com a Família
A mãe comentava comigo que ele parecia “possuído” por algum espírito, o levavam a benzedeira (sua mãe é espírita, seu pai católico) que de nada adiantava. O menino continuava o mesmo.
Sua mãe com orgulho relatava que seu filho era muito “macho”, pois não chorava quando se machucava, quando tomava uma injeção, quando apanhava, parecia que nem era com ele, pois a imagem corporal não era reconhecida como dele.
Não tinha medo do perigo, era capaz de atravessar uma rua sem ver os carros ou pular de um lugar alto. Ele de vez enquanto chegava para a terapia machucado. Sua mãe relatava que cuidava muito dele, mais parecia que ele nem percebia quando tropeçava nos móveis, às vezes se morde até sangrar, chupando seu sangue sorrindo
Dizia que Daniel para deixá-la irritada trancava-se no armário, ficando quietinho, não apresentava medo, acabando dormindo.
Cheguei a receber de sua mãe (ela sentiu necessidade) um diário com tudo que acontecia com Daniel no meio familiar, escolar e social. A importância de meu trabalho é de esclarecimento que uma deficiência poderá ser vencida a partir de um preparo teórico, amor e vontade de compreender o ser humano, a partir de tentativas entre erros e acertos.
Minha intenção é unir minha significativa experiência aos conhecimentos adquiridos de livros onde conceitos e esclarecimentos sobre o transtorno Invasivo do Desenvolvimento são subentendidos, tenho a salientar a ajuda incomparável de minhas supervisoras na Associação Fluminense de Reabilitação e a equipe multidisciplinar que lá atua.
Começo a preparação do paciente e sua família com a antecedência de 45 dias antes do meu afastamento. Todas as vezes que conversávamos sobre o assunto Daniel tampava minha boca com os seus dedos fechando-a. Colocando como resposta um CD de Padre Marcelo e traçando em seguida um CD de pagode.
Perguntei a sua mãe sobre aqueles significantes, gostaria de saber seu significado. Ela explica que o CD do Padre Marcelo Daniel gosta de escutar com sua avó materna a quem tem afeto e o pagode lembra o pai biológico.
Mantive até a última sessão com a orientação de minhas supervisoras, o aconselhamento familiar, apresentei a próxima terapeuta, conversamos sobre a proposta de tratamento, sobre as vitórias que havíamos conseguido e do mérito dos pais em toda a trajetória.
Apresentei a nova terapeuta ao Daniel que diferentemente ao ocorrido no inicio de nossos encontros terapêuticos, o paciente a acolheu e os três interagimos com propostas de várias brincadeiras, desenhos, entrarem e sair de túneis, etc...
O Daniel progrediu relata sua mãe, seu pai abre um largo sorriso participativo relatando que
incentiva o Daniel a abandonar as fraldas já que consegue controlar suas necessidades fisiológicas,está balbuciando, organiza-se de acordo com as suas possibilidades. Come sozinho e escolhe as roupas que vai usar, olhando-se no espelho. Entretanto, algumas vezes, sua mãe narra que coloca roupas antigas (roupas de idade de seus 02 anos).
Pontuei para a relação do casal, em aconselhamento familiar, da importância da resolução, tomar decisões, para que o paciente passe a sentir que existe uma família ao seu redor, existe uma organização familiar, podendo acontecer mesmo se a decisão seja não viverem juntos. O pai confessa que ama a mãe do paciente ficando inseguro pelas atitudes tomadas por ela.
Partindo da possibilidade de tratar-se a mãe como uma estrutura histérica onde o sujeito em sua tentativa para resolver os seus conflitos psíquicos, que são geradores de angustia empurra para o outro se colocando em uma espécie de couraça defensiva. “Seu nervosismo, autoritarismo, ansiedade, afirmando que estava enlouquecendo” (sic) possivelmente entra em curso a sedução exibicionista para com o pai de seu filho. Este pai, possivelmente uma estrutura narcísica, pois seu investimento se faz sobre a imagem do próprio corpo.
Mãe reclama que não consegue estabelecer limites ao paciente cobrando esta incumbência ao pai.
Comuniquei minha saída aos pais do paciente com este presente e ausente, apresentando a nova terapeuta.
Atitude de afastamento foi trabalhada com o paciente e sua família com tempo de 45 dias de antecedência.
Considerações Finais
Com diferentes instrumentos terapêuticos experimentais individuais e familiares pude avaliar na última sessão terapêutica antes da interrupção de minha atividade como estagiária na Instituição.
Como resultado pode-se apontar o desenvolvimento de habilidades como a escuta qualificada, o que permitiu o estabelecimento de uma relação de confiança e serviu para estimular o paciente autista a revelar por uma linguagem sua seus problemas, medos, dúvidas e angústias, possibilitando identificar um sujeito em sua singularidade.
12 de Janeiro de 2009 - lembro Daniel que é nossa penúltima sessão, antes de minha partida. Será uma sessão especial, pois Daniel utilizará vários significantes que só usou excepcionalmente. Mergulha na pia uma caminha da casinha, balbucia mama, colocando-a no fundo, após serve-se dela como uma taça para beber, diante de mim. Senta-se em uma cadeira, funga passa o antebraço no nariz cheio de secreção,venho com um papel toalha e com delicadeza passo em seu nariz onde ele assoa sem que eu peça.Entrega-me sua garrafa de suco (sua mãe sempre deixa o significante suco e biscoitos na mesa de atividades antes de fecharmos a porta,detalhe quem fecha a porta é Daniel) para que eu possa abrir.Tentamos um dialogo quando digo que não vou abrir pois não existe um bebê como Daniel e sim um menino que sabe o que quer, tem seus desejos, sua vontade.
Daniel sem pressa abre o suco e o bebe devagar, o tampa e o coloca de volta a mesa, dando atenção aos biscoitos.
Daniel sempre começa e termina uma atividade, existe um ritual para todas as atividades que ele me propõe.
Falo que nossa separação está próxima, teremos uma última sessão e está será a última, a próxima sessão será nossa despedida.
Daniel pede colo, fica quieto sentado, mãos na boca sugando. A chupeta depositada em meu bolso (todas as sessões ele a coloca dentro de meu bolso e ao término, retira e a coloca em sua boca, ao encontrar sua mãe). Neste instante, Daniel deita sua cabeça em meu peito, abandonando-se. Permanece ali por um longo minuto, seu olhar sem expressão, como se não estivesse naquele momento, naquele lugar. Mas não pode suportar mais que isso, endireita-se e senta na cadeira ao meu lado. Levanta-se vai para o tatame puxando minha mão, senta comigo, ao meu lado e me abraça. Vai até a casinha pega um berço e coloca perto de uma cama em um cômodo da casa, coloca-o lado a lado,fecha o penico dentro da casinha.Volta a acocorar-se diante da pia, colocando as camas dentro d”água,diz com gestos estar fazendo coco na fralda descartável, ri e abana o nariz, ri muito e me faz rir.Acaba a nossa sessão naquele instante adentrando a presença da mãe.
Trabalhei minha saída utilizando como ferramenta um calendário que eu e o Daniel íamos marcando juntos (marcando a data prevista da despedida e riscando as que estavam faltando).
16 de Janeiro de 2009 – neste dia de despedida, a mesma rotina foi estabelecida, Daniel como de costume tira sua chupeta da boca coloca-a em meu bolso do jaleco, vai até o armário da grande sala, sobe na cadeira que ele mesmo coloca encostada no armário para apanhar o som, fecha o armário e coloca a cadeira no lugar. Fica ao meu lado, coloca sua mão dentro da minha e saímos para a nossa sessão. Remexe meu bolso e acha o calendário e a data marcada de vermelho – é hoje!
Entrega-me o som na porta de sua sala, coloca sua mão na maçaneta sente que está fechada (não é a primeira vez que temos que aguardar, pois a terapeuta do outro horário acaba por entrar em nosso horário), não preciso explicar. Daniel senta-se no chão da soleira da porta para esperar, pedindo para que me sente também. Abaixo, ficando perto dele.
Acabamos entrando em nossa sala, ele fecha a porta e passa o trinco. Coloca o som sob a cadeira liga, coloca o seu CD. Começo a falar sobre a saída, a despedida. Que nunca mais nos veremos que eu estaria saindo de sua vida naquele momento seria nossa última brincadeira, o último bate-papo.
Daniel com os dedos faz de minha boca um bico por várias vezes fazendo-me calar, acomodando-me de joelhos em frente ao espelho (utilizava esta ferramenta na construção da imagem do paciente com a ajuda dos hidrocores e da silueta de nossos corpos).
Daniel liga o som um CD começa a tocar, as lágrimas começaram a brotar em meu rosto, Daniel com sua mãozinha as enxugava – Canção da América por Milton Nascimento, a letra está em epigrafe, letra expressiva da importância de um sentimento. Como esperar uma despedida?Como encarar um luto desta forma?Como aceitar a ausência?Foi um grande aprendizado, a sensibilidade, a criatividade desta criança chamada por tantos como deficiente. – Qual seria sua deficiência?Quantas pessoas, crianças ou não seriam capazes de programar uma despedida?Desabei e em cada lágrima derramada, sua mãozinha vinha para ampará-la. No silêncio, o paciente com os hidrocores começa a rabiscar no espelho, várias cores misturadas, cobrindo a imagem da minha silueta estampada no espelho, até só restar a dele. Ficando a minha totalmente colorida.
Compreendi que possivelmente, naquele momento, estava um sujeito desejante. O gesto silencioso daquele paciente, seu comportamento levou-me a pensar se existiria outra maneira de se estruturar psiquicamente o autismo que possa fugir à castração, como se sua visão de mundo seja diferente, simplesmente humano.
Referências Bibliográficas
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Silenciosa da comunicação não-verbal. 60ªedição. Petrópolis, Ed. Vozes, 1986.
LEBOYER, Marion. Autismo Infantil. Campinas. editora Papirus, 1935.
NASIO, J. -D. 5 Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan. RJ. Ed.Jorge Zahar, 1993.
RIBEIRO, Jeanne Marie de Leers Costa & Monteiro. Kátia Álvares de Carvalho Monteiro (organizadoras). Autismo e Psicose na criança – Trajetórias Clínicas. RJ. ed.7 letras, 2004.
JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise do autismo, Porto Alegre, ed. Artes Médicas, 1984.
NASIO, Juan David. A Criança Magnífica da Psicanálise – O conceito de sujeito e objeto na teoria de Jacques Lacan. 2ª edição. RJ. ed.Jorge Zahar, 1991.
TOLIPAN, Mônica. Uma Presença Ausente. RJ. ed.Jorge Zahar, 2002.
BUCAY, Jorge. Deixa eu te contar uma história... contos que me ensinaram a viver. SP. ed. Planeta do Brasil, 1994.
ESTILOS da Clínica. Revista sobre a Infância com problemas, volume VI – número 10 -, USP – Instituto de Psicologia, 1º semestre de 2001.
WINNICOTT, D.W. O brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago Editora, 1975.
PRISMAS: psicanálise, infância, adolescência, sociedade/Sociedade Brasileira de Estudos e Pesquisa da Infância. Volume II nº2 (2004) – Rio de Janeiro: A SOCIEDADE, 2004 - Anual
MELLO, Ana Maria S.Ros. Autismo –Guia Prático.Coordenadoria Nacional para Integração da pessoa portadora de deficiência –CORDE,São Paulo.2000.
Pierre Weill
Agradecimentos
Para aqueles que eu amo:
São mais numerosos
Do que eles possam imaginar.
Para aqueles que me emprestaram seu entusiasmo e seus textos.
Para todos os que se reconhecem como seres de ternura.
Em uma criança ausente,
Pequena frágil, angelical...
Seu cabelo enrolado, seu olhar vazio, seu medo de olhar
Ora agressivo ora dócil defeso que o inconsciente faz valer!
Como compreender o seu estranho passo a caminhar,
como compreender que seus olhos brilham no vazio,
sua mente lenta.
Olhos que olham e não vêem quando sua comida cai fora do prato,
Como entender que não entendo o porquê,
Mais que você com um sorriso nos lábios, me estimulam a tentar mais uma vez.
Como fazer perguntas se não sei falar com os lábios e sim com o coração!
Como compreender a minha linguagem se a poesia e a metáfora tomam conta do meu caminhar!
Que é difícil transformar tudo que sinto em palavras, converter meus pensamentos se nem mesmo os consigo entender!
Ao colocar CDs para tocar marcando pausas em cada música para falar!!!
Conseguindo expressar com o toque, a confiança e a necessidade de me comunicar,
minha amiga.... um dia volto para te encontrar!
Ao escutar, embora não saiba expressar em palavras, mesmo tendo algo a dizer,
fala mais alto a voz do coração,
Aqueles que me amam do jeito que sou não como os outros gostariam que fosse.
Este menino que cheio de esperança conquistou meu coração e cresceu em mim o desejo de ser Psicóloga!
Obrigada, pelo grande, imenso aprendizado, artista - autista.
Cida
.
“Amigo é coisa para se guarda
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que a América ouviu
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.”
16 de Janeiro de 2009 - Último encontro terapêutico com o paciente D.onde sua expressão de dor, angústia e esperança estão no CD escolhido em sessão.
Milton Nascimento, Canção da América.
Resumo
Durante muito tempo, associei a ternura ao contacto físico, no gesto percebido, oferecido com o encontro dos corpos, sendo esta não somente física, tendo a sensação como companheira, emoção imprevisível, olhar, movimento secreto e fugaz, associado ao conjunto de sentidos. Por este motivo associo todas as linguagens do corpo à ternura. No estágio na Associação Fluminense de Reabilitação, setor de Neurologia Infantil deparei-me com um caso clínico de diagnóstico em Transtorno Invasivo de Desenvolvimento acrescido de hiperatividade e agressividade, passando aproximadamente dois anos e meio nesta Instituição. Sentindo a necessidade de acompanhar em aconselhamento a mãe desta criança, o pai separadamente e o casal. O Autismo caracteriza uma desordem na qual uma criança jovem não pode desenvolver relações sociais normais, comporta-se de modo compulsivo, ritualista, geralmente não se desenvolve dentro dos padrões normais. Em quase 03 anos em aconselhamento tendo utilizado várias ferramentas infelizmente, não consegui fazer entender aos pais deste menino a necessidade de uma organização familiar e o significado de ter uma criança autista em seu convívio.O objetivo deste trabalho é identificar, demonstrar como esta criança autista se relacionava em sessão, sua adaptação, sua desordem inicial, a organização de idéias observadas tornando real o imaginário. Método: Com vistas a alcançar os objetivos estipulados em supervisão, optarei pelo estudo qualitativo, prospectivo, exploratório, estritamente experimental. Os avanços em sua compreensão são conduzidos a uma nova perspectiva terapêutica. Esta revisão foca o histórico, a nosologia e as características clínicas, associadas ao Transtorno Invasivo de Desenvolvimento e seu ambiente familiar.
Palavras-Chave: Autismo/terapia; Desenvolvimento infantil; aconselhamento familiar.
Resumen
Durante mucho tiempo, yo asociaba sensibilidad al contacto físico, el gesto percibido, se ofreció a encontrar los cuerpos, que no sólo es tener la sensación física como un compañero, emociones impredecibles, ojo, movimiento secreto y transitorio, asociado con el conjunto de direcciones. Por lo tanto nos unimos a todos los lenguajes de la sensibilidad del cuerpo. En el escenario de la Asociación de Rehabilitación del Fluminense, el sector de Neurología Infantil me encontró con un diagnóstico clínico del autismo acrecido en Hyperatividade e agresividad, pasando aproximedemente dos años y medio en esta institución.
Sentir la necesidad de seguir el consejo de la madre de este niño, el padre y la pareja por separado. El autismo que caracteriza a un trastorno en el que un niño pequeño no puede desarrollar relaciones sociales normales, se comporta de una compulsiva y ritualista, por lo general no se desarrolla dentro del rango normal. En casi 03 años en el asesoramiento y ha utilizado diversas herramientas por desgracia no podía hacer que los padres entiendan la necesidad de este niño para una organización de la familia y la importancia de tener un niño autista en su vecindario. El objetivo es identificar, demostrar cómo este niño autista estaba vinculada a la sesión, su adaptación, su trastorno inicial, la organización de las ideas observadas hacer lo imaginario real. Método: Con el fin de alcanzar los objetivos estipulados en la supervisión, optar por el estudio cualitativo, prospectivo y exploratorio exclusivamente experimental. Los avances en su comprensión se llevaron a un nuevo enfoque terapéutico. Esta revisión se centra en la historia, la nosología y clínica, asociados con trastorno generalizado del desarrollo y su entorno familiar.
Palabras clave: Autismo / tratamiento, desarrollo infantil, consejería familiar.
Introdução
Este trabalho é conseqüência de minha experiência na Associação Fluminense de Reabilitação (AFR), Instituição que trabalha com uma equipe multidisciplinar, quando de meu estágio de aproximadamente dois anos e meio de duração.
Minhas atividades foram direcionadas ao trabalho com crianças especiais com problemas neurológicos incluindo o autismo.
O departamento que atuei nesta Associação coordenada pela Psicóloga Lilia Maria Nogueira Lima e Jacqueline Sardinha Campos da Silva (1) é a Neurologia Infantil.
03 de fevereiro de 2007, meu primeiro dia, o conhecimento brotava as idéias primárias a respeito do conteúdo a ser estudado, este completamente alheio ao que estava estudando em minha graduação.
Deparo-me com a teoria Lacaniana – Jacques Lacan e crianças debilitadas.
Fiquei assustada!Perguntas sem respostas saíram do meu ser:
- Como dar conta? Como começar? Como me apoderar daquele lugar sem conhecer?Qual o meu objetivo e objeto para o trabalho? A impotência do não saber!Meu grande desafio, desde o inicio, era quanto ao posicionamento que deveria tomar, enquanto integrante desta equipe qualificada, que utilizava instrumentais técnicos bastante objetivos.
Qual a demanda desta equipe, da criança em tratamento e sua família, em relação ao psicólogo?Quais seriam as contribuições da psicanálise no processo de reabilitação?Que tipo de linguagem iria usar com crianças portadoras de deficiências?Seria possível usar a psicanálise nestas crianças? Teria que ouvir a voz do coração! As idéias fervilhavam, a maior delas indefinida, ao ver aquele menino. Milhões de perguntas, idéias, busca de conhecimento.
O primeiro instante em que meio assustada, atônita presenciei um pequeno menino magro, olhar apático, vestido com um short surrado, uma camiseta por cima da outra, cabelos despenteados, remelas nos olhos, nariz a fungar. Chupeta na boca a sugar de maneira expressiva, como se suga o leite materno. Invade a sala, acende e apaga as luzes, olhar perdido, vago, sem nenhum traço emocional; agitado, hiperativo com movimentos estereotipados com a cabeça e tronco. Suas mãos circulando em seu corpo como um pássaro no momento em que se coloca na posição de inicio de vôo.Sua sandália escondia uma meia encardida que no primeiro instante descobre um pezinho pequeno como se não suportasse aquele peso.
Correndo no corredor entre a sala de espera onde me encontrava com outras estudantes de psicologia, sem chamar atenção, sem olhar ninguém adentra na sala 05 e fecha a porta, não acende a luz. Logo a terapeuta que o atende abre a porta, acende a luz, tornando a fechar.
Escutamos batidos, gritos que mais pareciam urros secos de dor.
Passou-se aproximadamente 20 minutos, a calma volta ao escutarmos a música. A terapeuta canta, bate palmas, percebemos do outro lado da porta, na sala de espera.
- Será um quadro patológico?Será um recurso, uma ferramenta, um talento ou potencial que por não saber usar se volta contra o sujeito trazendo muito sofrimento, o isolamento, o medo. Como se processa o nascimento e a constituição deste sujeito, qual a estrutura psíquica?
Meu primeiro paciente, um menino de 03 anos com três hipóteses diagnósticas: A primeira hipótese de diagnóstico é a doença congênita com atraso no desenvolvimento psicológico de aprendizagem, de linguagem estereotipias motor, baixa interação social. (ECI)
A segunda hipótese diagnóstica é DI (Déficit Intelectivo).
O terceiro diagnóstico formulado é de Autismo acrescido da hiperatividade e da agressividade.
Nasceu de uma gravidez inesperada, cesariana, não chorou ao nascer, não mamou no peito (não foi estimulado pela mãe).
A psicomotricidade lenta, andando aos 26 meses. Despertou sua fala aos 32 meses parando completamente nesta época, não falando mais.
Teve refluxo durante toda a fase de bebê até 02 anos. Acometido por várias doenças respiratórias, tipo: bronquite, sinusite, etc., EEG normal. Sem crises convulsivas.
Freqüenta a escola desde 02 anos e 02 meses, período de adaptação de 03 meses.
Mãe relata que a criança é agressiva, principalmente com ela, não interage com crianças e não para, utiliza fraldas, mas sabe conter a urina e os esfíncteres. Mãe prefere colocar as fraldas para não ter trabalho.
Pais separados, separação ocorrida no mês de fevereiro de 2006.
Uso continuo de chupeta, coloca a chupeta toda em sua boca e suga. O ritual de levar o dedo à boca, aliás, leva todos os objetos a boca, coloca tudo o que vê na boca. Não aceita higiene bucal, troca chupeta de 3 em 3 dias.
Adora música, passando horas a colocar e trocar CDS. Come sozinho (com supervisão da mãe ou da irmã), veste-se e se calça sozinho. Gosta de tudo que gira, fica isolado na escola.
Desenvolvo o trabalho de estimulação precoce duas vezes por semana, em uma sala com um tatame, um espelho e brinquedos que uma criança de classe média teria em seu quarto.
Em 09 de fevereiro de 2007- ao receber a notícia da troca de terapeuta, Daniel (2) sinalizou e percebeu a mudança ficando incomodado (acendendo e apagando a luz da grande sala, apresentando uma agitação interna.), passando por mim parecendo não me ver, apagou e acendeu a luz percebendo como é ficar no escuro e depois no claro - conceito de ausência x presença, conceito de angústia na visão de Jacques Lacan.
Sem olhar, rodando a cabeça, foi para sua sala de costume. Atrás dele, seguimos eu e a terapeuta que estava deixando a AFR por ter acabado seu estágio.
A terapeuta começou a falar sobre a sua saída, dando a ele a visão de despedida, de ausência. Sentados no tatame eu, ele e a terapeuta. Ele permanecia no vazio.
Em 12 de fevereiro de 2007 - ao receber a notícia pela segunda vez, da troca de terapeuta, Daniel (2) sinalizou e percebeu a mudança ficando incomodado (acendendo e apagando a luz da grande sala, apresentando uma agitação interna.), passando por mim parecendo não me ver, apagou e acendeu a luz percebendo como é ficar no escuro e depois no claro. Sem olhar, rodando a cabeça, foi para sua sala de costume. Atrás dele, seguimos eu e a terapeuta que estava deixando a AFR por ter acabado seu estágio. A terapeuta começou a falar sobre a sua saída, dando a ele a visão de despedida, de ausência. Sentados no tatame eu, ele e a terapeuta. Ele permanecia no vazio. (ato ritualístico).
Meu primeiro encontro, meu primeiro olhar para um caso de Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. As causas do autismo infantil permanecem desconhecidas, como todo este assunto são suposições, são hipóteses, com muitos estudos em torno do tema, procurarei humildemente me deter aos meus estudos nas referências bibliográficas constando no final deste trabalho e minha modesta experiência como estudante de psicologia e minha vivência pessoal.
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(1) Dra Lilia Nogueira Lima e Dra Jacqueline Sardinha Campos da Silva – Psicoterapeutas da Associação Fluminense de Reabilitação com mais de 20 anos de experiência no atendimento a crianças portadoras de deficiências físicas e mentais, responsáveis pelo setor de Neurologia Infantil da Instituição.
Autismo – Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
.O que é o Autismo?
“Documentário que tive acesso, chamado “Autismo – Os diferentes tipos de Autismo (Google vídeo)” – trabalho de Leo Kanner (2) no Johns Hopkins Hospital onde a principal pergunta é:
-“ Como reconhecer uma criança autista no meio de tantas crianças?”
Toda a tentativa de definição do autismo tem início na primeira descrição por Leo Kanner em 1943 no artigo intitulado: “Distúrbios autísticos do contato afetivo” (“Autistic of affective Contact”). (3) São chamadas autistas as crianças que têm inaptidão para estabelecer relações “normais”- relações padrão de lhe dar valor de comunicação. Pois, o Outro nada representa, é o nada, encontrasse no vazio, sendo o vazio o próprio ser autista. (Visão da Psiquiatria)
Essas crianças apresentam igualmente estereotipias gestuais, uma necessidade imperiosa de manter imutável seu ambiente material, ainda que dêem provas de uma memória freqüentemente notável.
Olhando de uma forma geral, seu aspecto exterior, um rosto inteligente, uma aparência física normal.
No momento atual, nota-se significativa evolução na abordagem das questões relacionadas às pessoas com deficiência. Já se reconhece as potencialidades desses cidadãos, bem como se respeita suas limitações. Posturas assistencialistas cedem lugar a propostas que visam à garantia dos direitos das pessoas com necessidades especiais. Especificamente para as pessoas com autismo.
Por este motivo, escolhi o tema Autismo: Outra forma de ver o mundo para meu artigo de conclusão de minha graduação. Neste sentido utilizarei ferramentas direcionadas ao brincar como linguagem, articulando no entrelace do simbólico, do real e do imaginário, ocuparei o lugar de suporte a este percurso. Comentarei sobre minha experiência com Daniel, procurarei por intermédio do conhecimento da teoria Lacaniana e Winnicotiana desenrolar em meu artigo a relação estabelecida de amor, carinho, amizade e confiança que tornaram possível ver através do transtorno um sujeito desejante.
Entretanto, pretendo ao longo deste trabalho, descrever o percurso de uma estudante de psicologia, trabalhando com estimulação precoce, técnica que possibilita a emergência do sujeito, fazendo com que ele possa verbalizar, sem levar seus sentimentos para o concreto, visto pela psicanálise.
O sujeito do desejo, aquele sujeito que emerge a partir dos sonhos, sintomas, enganos, lapsos a atos falhos. Considerando, sobretudo, às condições que possibilitam a emergência do sujeito, que está para além dos significantes que lhe são oferecidos, tendo em vista, os aspectos da relação mãe- filho autista e os diferentes rumos que estes possam vir a tomar, de acordo com a posição da mãe frente à castração. (função paterna).
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(2) / (3)Dr.Leo Kanner (1943) – Médico austríaco, residente em Baltimore, nos EUA. Descreve casos desde 1938, o primeiro Donald T.
(4) Informações contidas no site da ASA-Autism Society of America (www.autism-society.org, 1999)
Sinais de Autismo
Os sinais de autismo normalmente aparecem no 1º ano de vida e sempre antes dos 03 anos de idade. A desordem é duas a quatro vezes mais comuns em meninos do que meninas.
Na publicação do artigo intitulado: “Distúrbios autísticos do contacto afetivo” (“Autistic disturbances of affective contact”), Kanner ressaltava que os sintomas fundamentais, o isolamento autístico, estava presente na criança desde o início da vida. Foi sugerido por ele que se tratava então de um distúrbio inato.”
Após estudar com Heisenberg, Kanner em 1956, observando que a síndrome pode se revelar, depois de um desenvolvimento aparentemente normal, no primeiro ou segundo ano de vida.
Kanner considerou dois sinais como patológicos, o isolamento autístico (aloneness) e a necessidade de imutabilidade (não sujeito a mudanças)-(sameness), excluindo a linguagem. (4)
Já em 1978, a sintomatologia foi organizada por Rutter, Orniz e Ritvo (1976) e no D.S.M.III(1980), como uma incapacidade de desenvolver relações sociais, um déficit no desenvolvimento da linguagem, respostas “anormais” (fora do padrão) ao meio ambiente, em particular, estereotipias gestuais e uma resistência à mudança e por último o fato de que os sinais aparecem antes da idade de 30 meses.
O comportamento social de uma criança Autista é ficar isolado do externo, de se adaptar a ter só si mesmo para dialogar, colocando-se alheio ao mundo externo, como o artista quando em criação se torna um ermitão.
Esta relação me levou a estimular esta idéia de monólogo em diálogo por intermédio do som, da música, trazendo meus CDS para nosso espaço terapêutico tentando com isto uma motivação para a comunicação.
Não será um isolamento necessariamente desagradável ou doloroso, se este processo for, em si, prazeroso para quem o pratica?
“O exercício da curiosidade, da descoberta e da criação contém em si uma espécie de satisfação muito singular e legítima: a de adiar a morte.” Tolipan (2002)
A criação é o maior inimigo da morte. Mas o pensamento criativo exige uma liberdade que se torna impossível sem algum isolamento. “Talvez por isso eu tenha me imposto um estudo solitário sobre a dor e o adoecer, que me pareciam, em princípio, intimamente relacionados.” Tolipan (2002).
Então, procurei apresentar apenas um estimulo, focando este para trazer à linguagem, a fala, a motivação de saber entender e de se fazer entender. O simbólico entendido enquanto lugar do que faz falta ou que foi perdido. Esta falta recebendo, desde a origem, uma significação propriamente humana, por meio da instauração de uma correlação entre a falta e o significante que a simboliza, para deixar sua marca na palavra e eternizar o desejo, em sua dimensão de irredutibilidade. Meu trabalho é de estimular e não invadir meu paciente, oferecendo-lhe o espaço necessário para que ele consiga dividir comigo sua angustia que se coloca em seu silêncio deixando de ser.
Quando da ocasião dos CDS que levávamos para as sessões, CDS de minha propriedade, a manifestação do desejo era dele, pois quem escolhia as músicas era ele. Passando a ser nossa via de comunicação, sendo após um tempo de confiança e parceria, criando um vínculo silencioso, que eu e ele sabíamos conduzir. A partir deste comportamento, Daniel passou a levar seus próprios CDS, recusando os meus, a possibilidade de estar sendo màgicamente feita à dialética em meio ao silêncio. Creia, acontecia em nossas sessões.
As características sintomáticas de um Autista são faltas de reação aos outros e de interesse por eles, sem comportamento de apego normal.
Em conversa com a mãe de Daniel (3), pois a atendia uma vez por semana para uma avaliação de comportamento, sendo pela transferência estabelecida um atendimento psicoterápico, pois sabedora que a representação da doença para mãe e filho, está marcada por conteúdos inconscientes que podem ser melhor apreendidos com a escuta psicanalítica. Não bastando o trabalho pedagógico do tipo:
- Você deve aceitar seu filho como ele é ele deve participar da vida social da família, ele deve receber muita atenção e por aí vai... Este espaço concedido a esta mãe, espaço para seu luto, sua dor, suas angustias deslocava o seu olhar do significante da criança, o que acontecia com seu filho. Este atendimento seguia por todo o tempo de acompanhamento a criança com a orientação e supervisão da Dra.Jacqueline Sardinha Campos da Silva intervindo.
Ela em relato, conta que na primeira infância, ao dar colo a seu filho, ele assumia uma postura rígida. Um bebe muito quieto, diz a mãe, não chorava, não pedia alimentação já que seu seio foi negado. ( SIC)
Como desculpa fala que pouco leite tinha quase nenhum, Daniel não gostava de colo, ficava com seus olhos distantes parados em um só ponto.
A mãe confessa que adorava seu comportamento porque a deixava fazer os afazeres domésticos, cita que parecia nem ter criança em casa. ”Era um bebê bonzinho, que não dava trabalho nenhum”, afirmava. (SIC)
Teoricamente, a falta de contacto visual, ausência de resposta, de sorriso e de mímica, a criança autista não distingui ou parece não distinguir os pais dos adultos estranhos. As pessoas que delas se ocupam são tratadas com indiferença.
O autista se comporta como se estivesse só, como se os outros não existissem, não procuram ser acariciadas e não esperam ser reconfortadas pelos pais quando têm dor ou sentem medo. Às vezes se interessam por alguma parte do corpo do Outro, sua mão, um detalhe de roupa, um objeto.
Não gostam de brincar em grupos ou desenvolver laços de amizade. Mostram pouca emoção, pouca simpatia ou empatia pelo Outro.
A partir de seu crescimento poderão desenvolver uma maior ligação.
O que é a dor física para o autista?
Quando uma criança autista apanha ou se auto-flagela, ela ri, parece ter prazer com o ato, deixando confusos seus pais. O que acontece com a sua imunidade?Sua mãe relata que seu filho Daniel dificilmente adoece, em leituras constatei a imunidade física de casos relatados em que crianças autistas poderiam ter provocado danos irreparáveis ao seu corpo (engolir tesouras, grampeadores, etc...) e nada acontecer.
Será que a doença mental, o transtorno, o desconforto de ser diferente poderá ser um recurso defensivo do próprio organismo que se voltasse contra nós porque não o conhecemos ou porque não sabemos usá-lo?A esfera, a bola, a roda os fascina.
Essa estereotipia é singular no reconhecimento de um portador de Transtorno Invasivo do Desenvolvimento.
Muitos autistas geralmente não falam verbalmente, não emitem nenhum som ou resmungo. A impressão que existe é que são surdos, porque não respondem a nenhum estimulo, ficando parado como se estivessem longe, fora da realidade.
O resultado da audiometria feita assim que Daniel (3) resolveu parar de falar, a partir de 29 meses, (chegando a falar papai e mamãe, improvisando um diálogo) demonstrou atenção e localização da fonte sonora para sons graves. Responde ao chamado do próprio nome, seu sono é normal.
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(3) Daniel – nome fictício, resguardando a identidade de meu paciente.
Sua mãe confessa não aceitar uma escola especial para seu filho, descrevendo um desenvolvimento normal até 29 meses, começando a partir disto a observar os sintomas.
Os sintomas maiores para diagnóstico de um quadro de Autismo estão ligados ao estímulo sensorial e os distúrbios do desenvolvimento. Podemos observar uma hipo ou hiperatividade a esses estímulos e uma alternância desses dois estados em diferentes ocasiões e durante períodos que variam de horas ou meses. Quando os autistas são hipersensíveis às estimulações, eles parecem ter um déficit sensorial. Isso explica que o diagnóstico de surdez ou de cegueira pode às vezes ser suspeito, ainda que não haja nenhum déficit primário de percepções.
Ao que diz respeito à audição, pode existir uma ausência de respostas a estímulos sonoros (sons ou comandos verbais) qualquer que seja sua intensidade ou brutalidade, inversamente, uma sensibilidade exagerada aos ruídos pode alterar, levando a criança até a proteger os ouvidos com as mãos. Às vezes ela procura estimulação auditiva, a exemplo esfregando uma superfície e pondo o ouvido bem perto para escutar, rangendo os dentes ou batendo nas orelhas. (sinais de escuta).
Portanto, as crianças com o Transtorno Invasivo do Desenvolvimento poderão ter sensibilidade ao escutar alguns sons, agudos e graves e sentir um grande incomodo sendo insuportável sua escuta, deixando-os irritados e possivelmente agressivos.
Outras percepções sensoriais como tocar, o olfato ou o paladar, são também perturbadas.
A criança pode ter respostas excessivas ou atenuadas ao tocar, à dor, á temperatura, durante os primeiros anos de vida, ela nem sempre reage aos fenômenos dolorosos como os cortes, as quedas ou as injeções, como também pode não tolerar o contato com um tecido particular em seu corpo. Mas, a fascinação por objetos giratórios está sempre presente, a criança não tem vertigens nem sonolência.
Seu modo de colocar seu corpo em um balanço estereotipado, podendo mostrar aversão às estimulações como entrar em um elevador ou automóveis.
Caso Clínico
Sessões
No dia 16 de Fevereiro de 2007- na sala de sessões, Daniel inicia seu balanceio ritualístico, depois de mastigar um biscoito. Fungava de vez enquanto, passava o dorso de seu braço no nariz, estava resfriado, geralmente seu estado. Sua mãe interrompe a sessão para lhe entregar o seu lanche, colocando-o em cima da mesa. Daniel agarrou-se a ela por instantes, sendo acalmado pela antiga terapeuta. Ele pega um biscoito em cada mão e balança. Entrega a garrafa de suco para a antiga terapeuta, parecendo um pedido para que ela se encarregasse de abri-la, neste dado momento a terapeuta indicou a minha pessoa como sua substituta.
Daniel até então, não demonstrara reconhecer a minha presença no recinto, começou a se desorganizar de tal maneira, batendo com sua cabeça na parede, muito agitado, gritando,emitindo sons guturais, ininteligíveis, enquanto agitava os braços como se fosse voar. Não conseguindo nenhum tipo de controle. Sentando-se em um balanço fetal, batendo com suas mãos em sua cabeça, em seus ouvidos, com força, como não querer escutar aquela quebra em sua rotina
O que fazer naquele momento?Como estabelecer um contacto com alguém que não quer contacto?É um sintoma?Se este é um sintoma será um bom sinal?Quantas perguntas sem respostas se passam em minha cabeça, a única atitude seria a ausência, do mesmo modo como ele se colocou todo o tempo em que estive presente. Assim fiz, apaguei a luz, sai e bati a porta. Utilizei a sua linguagem! Apagar e acender?Ausência e presença.
Após alguns minutos encontro em outra sala 02 fantoches representativos de 01 boneco de cabelos escuros, uma boneca com um coque de cabelos grisalhos, o boneco vestido com uma camisa social poída e a boneca com um vestido largo, mangas de renda e gola role. Tive o cuidado de ao entrar fechar rapidamente a luz, acendendo em seguida, mas, desta vez mantendo meu rosto coberto pelos bonecos. Nomeei os bonecos,quando Daniel escutou o nome Jorge ficou atento,percebi que aquele nome significava algo para ele, senti a boa escolha que havia feito. Meu primeiro contato parecia ter sido estabelecido, provavelmente começávamos uma transferência positiva.
A minha relevância pessoal foram às respostas corporais que tive deste menino, vendo um sujeito de desejo, vendo que mesmo sem ter uma linguagem em padrões normais ele parecia se comunicar comigo, naquele momento por intermédio de marionetes mais tarde por intermédio de seus e meus CDS. Quando nos entendíamos ele retirava o CD e colocava outro seguindo a seqüência de nossa conversa. Estabeleceu-se uma dialética sem fala, a partir de minhas intervenções.
Ele parecia escolher suas questões, seus conflitos e utilizava como fala seus CDS, a partir da música. Quando provavelmente nos entendíamos,quando eu pontuava, ele retirava o CD e colocava outro seguindo a seqüência de nossa conversa, como se estivesse respondendo ao seu impulso,leitura meramente experimental.
Minha relevância social, cultural ou histórica de meu trabalho in lócus foi à abertura com os seus pais, onde paralelamente e paulatinamente tentava obter respostas para avançar no meu planejamento de tratamento, sempre sob orientação de Dra.Jacqueline.
O fascínio é a música que se desenrola na fala deste sujeito desejante, é quando a linguagem se desenvolve, tendo valor de comunicação, antes caracterizada de forma simbólica (já que não havia fala e sim gestos como pegar em minha mão e utilizá-la como se fosse à dele), por uma ecolalia (repetição automática involuntária) imediata e retardada ou repetição de frases estereotipadas (utilização “do pronome” “tu” quando deveria utilizar o” eu”).
Encontrei significados e significante no tratamento musica terapêutico, sendo este o meu instrumento de trabalho no enfoque psicanalítico.
O gestual do paciente, possibilita um desenvolvimento afetivo-emocional com o máximo de segurança de expressão de sentimentos e de organização internamente na direção da autorealização.
No enfoque psico-analítico, representado por Winnicott, o brincar tem um significado muito amplo, dizendo respeito não só a criança, quanto ao adulto.É talvez, apenas no brincar que a criança ou o adulto fluem sua liberdade de criação e busca do eu mesmo(Self).
Isso dá indicação para o procedimento terapêutico: propiciar oportunidade para a experiência e para os impulsos criativos, motores e sensórios que constituem a matéria prima do brincar.
É com base no brincar, que se constrói a totalidade da existência experencial do homem.Não somos mais introvertidos ou extrovertidos,experimentamos na área dos fenômenos transacionais, no excitante entrelaçamento da subjetividade e da observação objetiva, numa área intermediária entre a realidade interna do indivíduo e a realidade compartilhada no mundo externo do indivíduo.
Como estudante de psicologia desenvolvi um experimento com a estimulação do brincar de falar com música com o Daniel, brincávamos com o corpo como expressão de um sentimento ou idéia, uma forma de linguagem, a entrada no simbólico.Com a estimulação precoce busquei a possibilidade de uma imagem corporal positiva, de uma pessoa desejante, que poderia desenvolver sua autoestima, um corpo que inicialmente deu prazer ou não ao outro e que possa ter prazer consigo mesmo, se descobrindo.
Trabalhando com a família de Daniel (mãe,pai e irmã) pensei na possibilidade que a mesma se estruturar diante da realidade, integrando o Daniel na mesma e na comunidade em que vivem, tendo acesso a todos os dados em relação ao meu paciente, para que tivessem condições junto ao equipe de reabilitação e a criança autista, assumir e tomar decisões de forma madura.
A sociedade costuma padronizar as pessoas como "normais", quando exercem uma profissão, são casados e possuem filhos, mesmo que, preconceituosamente, sejam tidas e, não raramente evitadas, por parecerem "esquisitas" ou diferentes da maioria das pessoas conhecidas famílias onde pessoas fogem dos padrões de normalidade com algum membro portador do Transtorno Invasivo do Desenvolvimento. Para se alcançar melhor compreensão sobre o autismo e as implicações contidas no quadro sindrômico, visando a educação da criança autista, é preciso ter conhecimento sobre o desenvolvimento normal da criança e suas funções desenvolvidas, para que haja distinção do que seja realmente um comportamento autista. Discernindo suas características principais, seus limites, seu potencial capacitador, suas necessidades e prioridades que precisam ser estudadas e trabalhadas, com a finalidade de se proporcionar à pessoa com autismo, maior estabilização emocional possível e nível de desenvolvimento global mais próximo da normalidade.Pessoas com autismo apresentam, desde cedo, um distúrbio do desenvolvimento, principalmente, relacionado a sua comunicação e interação social. Mas, por outro lado, podem apresentar incríveis habilidades motoras, musicais, de memória e outras, que muitas vezes, não estão de acordo com sua idade cronológica, apresentando-se bem mais adiantada do que deveriam estar.Acreditando neste fato, experimentalmente, intuitivamente convivi com a dificuldade tendo apenas uma estratégia gratificante que é aprender que com o amor, deixando fluir esse sentimento de dentro para fora de nós buscando o próximo.
Portanto, passamos muitas vezes pela vida olhando-os sem vê-los.
Sessões com a Família
A mãe comentava comigo que ele parecia “possuído” por algum espírito, o levavam a benzedeira (sua mãe é espírita, seu pai católico) que de nada adiantava. O menino continuava o mesmo.
Sua mãe com orgulho relatava que seu filho era muito “macho”, pois não chorava quando se machucava, quando tomava uma injeção, quando apanhava, parecia que nem era com ele, pois a imagem corporal não era reconhecida como dele.
Não tinha medo do perigo, era capaz de atravessar uma rua sem ver os carros ou pular de um lugar alto. Ele de vez enquanto chegava para a terapia machucado. Sua mãe relatava que cuidava muito dele, mais parecia que ele nem percebia quando tropeçava nos móveis, às vezes se morde até sangrar, chupando seu sangue sorrindo
Dizia que Daniel para deixá-la irritada trancava-se no armário, ficando quietinho, não apresentava medo, acabando dormindo.
Cheguei a receber de sua mãe (ela sentiu necessidade) um diário com tudo que acontecia com Daniel no meio familiar, escolar e social. A importância de meu trabalho é de esclarecimento que uma deficiência poderá ser vencida a partir de um preparo teórico, amor e vontade de compreender o ser humano, a partir de tentativas entre erros e acertos.
Minha intenção é unir minha significativa experiência aos conhecimentos adquiridos de livros onde conceitos e esclarecimentos sobre o transtorno Invasivo do Desenvolvimento são subentendidos, tenho a salientar a ajuda incomparável de minhas supervisoras na Associação Fluminense de Reabilitação e a equipe multidisciplinar que lá atua.
Começo a preparação do paciente e sua família com a antecedência de 45 dias antes do meu afastamento. Todas as vezes que conversávamos sobre o assunto Daniel tampava minha boca com os seus dedos fechando-a. Colocando como resposta um CD de Padre Marcelo e traçando em seguida um CD de pagode.
Perguntei a sua mãe sobre aqueles significantes, gostaria de saber seu significado. Ela explica que o CD do Padre Marcelo Daniel gosta de escutar com sua avó materna a quem tem afeto e o pagode lembra o pai biológico.
Mantive até a última sessão com a orientação de minhas supervisoras, o aconselhamento familiar, apresentei a próxima terapeuta, conversamos sobre a proposta de tratamento, sobre as vitórias que havíamos conseguido e do mérito dos pais em toda a trajetória.
Apresentei a nova terapeuta ao Daniel que diferentemente ao ocorrido no inicio de nossos encontros terapêuticos, o paciente a acolheu e os três interagimos com propostas de várias brincadeiras, desenhos, entrarem e sair de túneis, etc...
O Daniel progrediu relata sua mãe, seu pai abre um largo sorriso participativo relatando que
incentiva o Daniel a abandonar as fraldas já que consegue controlar suas necessidades fisiológicas,está balbuciando, organiza-se de acordo com as suas possibilidades. Come sozinho e escolhe as roupas que vai usar, olhando-se no espelho. Entretanto, algumas vezes, sua mãe narra que coloca roupas antigas (roupas de idade de seus 02 anos).
Pontuei para a relação do casal, em aconselhamento familiar, da importância da resolução, tomar decisões, para que o paciente passe a sentir que existe uma família ao seu redor, existe uma organização familiar, podendo acontecer mesmo se a decisão seja não viverem juntos. O pai confessa que ama a mãe do paciente ficando inseguro pelas atitudes tomadas por ela.
Partindo da possibilidade de tratar-se a mãe como uma estrutura histérica onde o sujeito em sua tentativa para resolver os seus conflitos psíquicos, que são geradores de angustia empurra para o outro se colocando em uma espécie de couraça defensiva. “Seu nervosismo, autoritarismo, ansiedade, afirmando que estava enlouquecendo” (sic) possivelmente entra em curso a sedução exibicionista para com o pai de seu filho. Este pai, possivelmente uma estrutura narcísica, pois seu investimento se faz sobre a imagem do próprio corpo.
Mãe reclama que não consegue estabelecer limites ao paciente cobrando esta incumbência ao pai.
Comuniquei minha saída aos pais do paciente com este presente e ausente, apresentando a nova terapeuta.
Atitude de afastamento foi trabalhada com o paciente e sua família com tempo de 45 dias de antecedência.
Considerações Finais
Com diferentes instrumentos terapêuticos experimentais individuais e familiares pude avaliar na última sessão terapêutica antes da interrupção de minha atividade como estagiária na Instituição.
Como resultado pode-se apontar o desenvolvimento de habilidades como a escuta qualificada, o que permitiu o estabelecimento de uma relação de confiança e serviu para estimular o paciente autista a revelar por uma linguagem sua seus problemas, medos, dúvidas e angústias, possibilitando identificar um sujeito em sua singularidade.
12 de Janeiro de 2009 - lembro Daniel que é nossa penúltima sessão, antes de minha partida. Será uma sessão especial, pois Daniel utilizará vários significantes que só usou excepcionalmente. Mergulha na pia uma caminha da casinha, balbucia mama, colocando-a no fundo, após serve-se dela como uma taça para beber, diante de mim. Senta-se em uma cadeira, funga passa o antebraço no nariz cheio de secreção,venho com um papel toalha e com delicadeza passo em seu nariz onde ele assoa sem que eu peça.Entrega-me sua garrafa de suco (sua mãe sempre deixa o significante suco e biscoitos na mesa de atividades antes de fecharmos a porta,detalhe quem fecha a porta é Daniel) para que eu possa abrir.Tentamos um dialogo quando digo que não vou abrir pois não existe um bebê como Daniel e sim um menino que sabe o que quer, tem seus desejos, sua vontade.
Daniel sem pressa abre o suco e o bebe devagar, o tampa e o coloca de volta a mesa, dando atenção aos biscoitos.
Daniel sempre começa e termina uma atividade, existe um ritual para todas as atividades que ele me propõe.
Falo que nossa separação está próxima, teremos uma última sessão e está será a última, a próxima sessão será nossa despedida.
Daniel pede colo, fica quieto sentado, mãos na boca sugando. A chupeta depositada em meu bolso (todas as sessões ele a coloca dentro de meu bolso e ao término, retira e a coloca em sua boca, ao encontrar sua mãe). Neste instante, Daniel deita sua cabeça em meu peito, abandonando-se. Permanece ali por um longo minuto, seu olhar sem expressão, como se não estivesse naquele momento, naquele lugar. Mas não pode suportar mais que isso, endireita-se e senta na cadeira ao meu lado. Levanta-se vai para o tatame puxando minha mão, senta comigo, ao meu lado e me abraça. Vai até a casinha pega um berço e coloca perto de uma cama em um cômodo da casa, coloca-o lado a lado,fecha o penico dentro da casinha.Volta a acocorar-se diante da pia, colocando as camas dentro d”água,diz com gestos estar fazendo coco na fralda descartável, ri e abana o nariz, ri muito e me faz rir.Acaba a nossa sessão naquele instante adentrando a presença da mãe.
Trabalhei minha saída utilizando como ferramenta um calendário que eu e o Daniel íamos marcando juntos (marcando a data prevista da despedida e riscando as que estavam faltando).
16 de Janeiro de 2009 – neste dia de despedida, a mesma rotina foi estabelecida, Daniel como de costume tira sua chupeta da boca coloca-a em meu bolso do jaleco, vai até o armário da grande sala, sobe na cadeira que ele mesmo coloca encostada no armário para apanhar o som, fecha o armário e coloca a cadeira no lugar. Fica ao meu lado, coloca sua mão dentro da minha e saímos para a nossa sessão. Remexe meu bolso e acha o calendário e a data marcada de vermelho – é hoje!
Entrega-me o som na porta de sua sala, coloca sua mão na maçaneta sente que está fechada (não é a primeira vez que temos que aguardar, pois a terapeuta do outro horário acaba por entrar em nosso horário), não preciso explicar. Daniel senta-se no chão da soleira da porta para esperar, pedindo para que me sente também. Abaixo, ficando perto dele.
Acabamos entrando em nossa sala, ele fecha a porta e passa o trinco. Coloca o som sob a cadeira liga, coloca o seu CD. Começo a falar sobre a saída, a despedida. Que nunca mais nos veremos que eu estaria saindo de sua vida naquele momento seria nossa última brincadeira, o último bate-papo.
Daniel com os dedos faz de minha boca um bico por várias vezes fazendo-me calar, acomodando-me de joelhos em frente ao espelho (utilizava esta ferramenta na construção da imagem do paciente com a ajuda dos hidrocores e da silueta de nossos corpos).
Daniel liga o som um CD começa a tocar, as lágrimas começaram a brotar em meu rosto, Daniel com sua mãozinha as enxugava – Canção da América por Milton Nascimento, a letra está em epigrafe, letra expressiva da importância de um sentimento. Como esperar uma despedida?Como encarar um luto desta forma?Como aceitar a ausência?Foi um grande aprendizado, a sensibilidade, a criatividade desta criança chamada por tantos como deficiente. – Qual seria sua deficiência?Quantas pessoas, crianças ou não seriam capazes de programar uma despedida?Desabei e em cada lágrima derramada, sua mãozinha vinha para ampará-la. No silêncio, o paciente com os hidrocores começa a rabiscar no espelho, várias cores misturadas, cobrindo a imagem da minha silueta estampada no espelho, até só restar a dele. Ficando a minha totalmente colorida.
Compreendi que possivelmente, naquele momento, estava um sujeito desejante. O gesto silencioso daquele paciente, seu comportamento levou-me a pensar se existiria outra maneira de se estruturar psiquicamente o autismo que possa fugir à castração, como se sua visão de mundo seja diferente, simplesmente humano.
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